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Quem sabe...

por esquisita, em 08.12.22

 

Quem sabe, seja por em outros tempos,
que não estes de tanta ausência,
que agora vivo, nunca me ter sido dado a conhecer,
nem por um instante, que aos agora faltam,
também sobravam lugares vazios, falhas e frio, talvez…
Quem sabe, seja eu hoje, dia do presépio e do pinheiro,
a levantar-me cedo para pintar os olhos de cor e brilho,
a retocar os lábios com o meu melhor sorriso,
e com esse alindar singelo, sem fingimento,
queira que ninguém sinta diferente do que, então, senti.
No dia seguinte, sacode-se o pinheiro,
o Natal evapora, só madeira seca,
sopra-se o presépio,
o Natal esquece, só barro oco,
mas a mãe que foi, é.
como a mãe que sou,
(quem sabe?) continuará a ser, talvez…

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Não me provoques!

por esquisita, em 27.11.22

 

… adivinha onde estou? Estou sem vontade de supor paradeiro incerto, em terra capital… Bem sei onde estás! … para mais, convém-me transparecer amuo por não poder ir a par (amuaaaar faz bem, como na canção)… Diz, se quiseres! Só depois me apercebo, que rigor das coordenadas é para consolo do meu despeito (mas não demores)… Na Igreja! Sabe como me desamarrar o burro, ainda assim muar que se preze, empanca … Então, procura Helsínquia, se existir! (pura pirraça) O mesmo que pedir desforra por ter ficado em terra. A menos que a peste lhe tenha fechado as portas, ou as modas lhe tenham mudado o nome, Helsínquia tem resistido sempre. Ouço os passos em busca… No gaveto do primeiro quarteirão, lado esquerdo!… a ofegar avenida acima, ainda me fala de Itália, para distrair com a cassata, mas estou virada aos lanches. Na esplanda senhoras de cabelo armado, blusas de seda e grandes óculos de sol, a bebericar limonada, enquanto abanicam discretamente os calores da época e da meia idade, fazem esvoaçar vaporosa conversa perfumada (onde é que eu já li isto?). Querida avó, tão cordial e elegante nas suas tardes de verão… por fim Está no sítio de sempre, mais moderna, para que saibas!  E sei também que do outro lado, PA tem outro figurino, já não é Princesa. Resisto ao abuso de pedir confirmação, até porque, hora e mesa estão marcadas… Divirtam-se! … e as minhas pernitas magras, cansadas de balançar ao ritmo da prosa miúda de gente grande, num impulso me fazem saltar da cadeira, com rumo certo à Epifânio. Não sei ler placas de toponímia, nem coisa nenhuma. Ainda não. Hei-de orientar a memória como os pombos, pelas referências. A calçada diária, a igreja dominical, a curva, o declive, o trânsito muito e as pessoas muito mais, vão diminuindo como num funil até às escadas (não desço já) procuro a janela, quadrado que sempre me pareceu pequeno para iluminar a sala. Lá estou eu, final da tarde, à espera que me leve… Aonde?...ali adiante, a casa do tio… Mas qual tio?... Marcelo, diz meu pai. Querido avô, militarmente recto, paternalmente escandalizado… O teu pai fala de mais! (fala o que pensa e nada mais, pensei)…docemente enternecido a recusar parentesco e visita (ponto final). Mergulho nas estacas, antes de entrar. Ainda aí estás?... Adiante os Estados Unidos, na outra margem, Guilhermina das manhãs de sexta-feira: Mise en plis, unhas, buço e sobrancelhas, café, rissóis e croquetes… Estou cansada, volto outro dia…

 

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Toca a banda!

por esquisita, em 19.11.22

 

A obra está pronta. Toca a banda. Para já, inauguram a iluminação e espante-se o povo… Nesta rua, ou estrada, ou auto estrada (ou lá o que isso é, que eu de rodovias, não percebo nada), ladrilhada com pedrinhas de brilhantes, ou diamantes, ou outra coisa qualquer, (que eu de carbono e carbonetos, nada sei) descobre-se que o caminho não é direito, ou não corta a direito, ou não tem direitos (ou o que for, que eu nem devia falar, porque enjoo muito nas curvas).
3,2,1… Já que aqui estamos, é fechar os olhos e siga! Mas primeiro toca a banda!

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Memória herdada

por esquisita, em 14.11.22

 

Borbulha como poção mágica, fazendo tremer o caldeirão. Defendo-me a custo: na mão esquerda, o testo como escudo, à direita a espada de pau…

Eram danados para engendrar artimanhas. Nos primeiros dias, era juntar o risco de ser apanhado em flagrante com a falta de consistência; nem pensar! Lá pelo meio da semana, já se podia inclinar a malga e deixar que deslizasse inteira. Depois, era só pegar na navalhinha de capar grilos, e cortar-lhe a curva por altura do pólo sul. Logo ali e sem demora, a dividiam entre si, para que se derretesse na boca, enquanto remediavam o desfalque. Voltava tudo ao seu lugar, sem que ninguém desse por nada. Ao outro dia, se tornava a fazer sol, lá estava a tentação debruçada no peitoril da janela providencialmente aberta, a desafiar a gula. Mais uma volta e mais um paralelo era subtraído à socapa. Por essa altura, o hemisfério ficava reduzido a pouco mais que um disco delgado apoiado por uma rudimentar, mas eficaz, estacaria de gravetos. Aconchegada no seu lençol de seda perfumado a aguardente, muito composta, como se intocada por mãos tão gulosas como matreiras, a marmelada continuava a secar ao sol.

…Valha-me Deus, que horas são estas?!

 

 

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Sexta-feira

por esquisita, em 06.11.22

 

Estou certa de que era Domingo. A feira sempre foi ao Domingo, não sei se o último ou o penúltimo do mês, mas sempre no primeiro dia da semana. Há quanto tempo, não sei. Neste século, certamente. Foi escolhido à pressa, sem critério nem vontade, depois de ter revirado a banca em busca não sei de quê. Veio comigo por minha vergonha de não reconhecer os tesouros, no meio de tanta quinquilharia. Sou bruta… Adiante!
A noite passada deitei-me de novo com o Syme. Há quanto tempo! Talvez por conta da névoa, ou quem sabe, seja efeito da fumarada que a salamandra dos vizinhos larga pela chaminé, acordei Sexta-feira — Sem fé suficiente para acreditar na matéria — hoje é Domingo, e não há feira!

 

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Rima pobre(zinha) da Vontade

por esquisita, em 03.11.22

 

Dita sentenças para o depois,
dispõe a ordem que virá.
Que assim se há-de fazer,
amanhã, assim será!

Sem carecer de convite,
não se faz anunciar,
Senta-se à mesa, com ele
Era hora de jantar

Veio ao engano, se por ele veio!

Cedo casou com a Vontade,
dela tem os filhos que quiser
O seu querer é sagrado
e recusa-se a morrer!

Serena estava, em paz ficou
Ergue a taça e consente,
Contrariado, ninguém parte…

Desse vinho o faz beber,
E enquanto brindam à vida,
envenena-lhe a mulher!

 

 

 

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Poder e pedir

por esquisita, em 28.10.22

 

 

Pede, Alguma coisinha, pra comer. Alguma coisinha, será dinheiro? Pode mesmo ser, alimento, que é pra matar a fome
Tenho desconfianças de que não me orgulho. Desgosta-me a sobranceria de quem pode, abomino a humilhação de quem pede. Não escondo nem emendo, sou gente banal. Dinheiro, não! Mas o alimento não se nega, nem eu.
Sítios ou horários pouco próprios, em busca de uma refeição, já me levaram a situações caricatas. Desta feita, Um hambúrguer, se puder ser! estava ali a dois passos. Alguma coisinha, pode ser um pão com carne picada, por que não? Nunca comi, não sei a que sabe, também não sei o sabor, que é a fome. Sabe ela, mais que eu.
E nisto, inesperado, Como te chamas?  À resposta do meu nome, junta quem é, Eu sou a… e mais me diz, sem que pergunte: da mãe, dos nove irmãos, da rua, do frio e do cartão, da fome… a vida toda a justificar um hambúrguer.
Já se me inverte a corrente do sangue. Posso ser crédula, posso ser fraca.

Eu posso, ela pede…
Pede para comer e aceita o que lhe derem.

 

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Romã

por esquisita, em 21.10.22

 

Em que cismas?

No bago rubi da romã rachada,
e na gota carmim, que escorre do recente rasgo incadescente…

Que dizes tu, criatura?

…rubro fruto, onde descubro um outro Outono, que fora de mim ocorre!

Estafermo d'um raio, que muito te embeiças por palavras!

Soubesse a semente,
ao que que está destinada…

Temos festa!

 

 

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Apontamentos

por esquisita, em 15.10.22

 

Atrás do balcão, está um funcionário com maus modos, roído pelo desejo de carimbar a última declaração, fechar o postigo e mudar de vida. É um bom homem, afável e educado, que vê a sua condição alterada diariamente. O ar carrancudo e as palavras ásperas, são ferramentas de trabalho, que sabe usar com mestria. Torna a telefonar, ninguém atende. Se insistir, desligam o telefone.
À beira da estrada, outro homem sentado no lancil, alinha milimetricamente as pontas dos sapatos, pelo limite da linha amarela pintada no asfalto. Vai aguardar pacientemente, pela certeza de se fazer atropelar por um camião. Sendo uma pessoa indecisa, mas metódica nas pequenas escolhas, demora. Escolheram por ele. Sente que vai adormecer.
No centro da sala ficou a cadeira e senhora de meia idade que está e estará sentada, até que alguém a venha buscar. Minha querida, tem que esperar! Ela geme, a espaços largos. Entretanto, as mãos trêmulas levam os dedos à boca para arrancar a língua. Os dentes mastigam os dedos. O camião, seria mais rápido e menos doloroso. Não chora nem esconde, sofre e sangra. Minha querida, isso não! Deixe-me limpar-lhe a boquinha…
Teve tempo para apreciar as unhas, durante a viagem de autocarro. Ficaram perfeitas, ninguém diria que não são trabalho de uma profissional. São um luxo, estas unhas! O funcionário concorda.
Quatro dias e três noites, são demasiado. Estão para além das forças. Um conhecido apresentador e um desconhecido especialista na matéria, são o bastante. A receita é simples, os benefícios garantidos, e um bolinho é o suficiente. Quatro dias e três noites é muito tempo! Esqueceu-se de urinar, antes de dormir.

Assimilação suspensa, aguarda processamento.

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O que faz falta

por esquisita, em 11.10.22

 

Há diálogos impossíveis, em que não me sei orientar...

Falha minha, reconheço, não me entender com argumentos retirados do umbigo. Valores invariavelmente, precedidos do singular possessivo na primeira pessoa, valem o quê? Destaque para a "minha" liberdade. Cáustico exercício da vontade e das vontades, adoçado de seguida pela "minha" magnânima tolerância. E se disser, moral? Nem pensar! Da moral ao moralismo são dois passos, logo adiante a predição. Quanto muito, ética, mas pessoal e caseirinha, de fabrico próprio, para consumo do próprio. Nem imaginava que tal coisa existisse! Consciência, isso sim! Em abundância, muito limpa e asseada, atenta à imundíce que é o mundo, disposta a fazê-lo mudar. Faz falta a consciência, é o que dizem!

 

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