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Querer e não querer

por esquisita, em 19.11.25

 

Reconheço ter ido longe demais.

Por várias vezes amaldiçoei o rato, persegui-o sem descanso, e acabei por fazer queixa dele à higiene e segurança.

Vieram inteirar-se da ocorrência, perguntaram-me se tinha medo, tive de responder que medo não tinha, quiseram saber se era nojo e nem isso fui capaz de afirmar de forma convicta. Quero, muito simplesmente, o rato fora daqui, já e agora!

De todos obtive grande compreensão, muito embora me tenham criticado o hábito de deixar sempre a porta aberta e apontarem para esse facto, que não posso desmentir, como sendo o motivo para se ter instalado a ratice no meu escritório.

Chamaram de imediato os especialistas, mas entretanto já se tinha espalhado a novidade e ao rato começaram a chamar-lhe meu: o meu rato a passar rente aos pés e a desaparecer por detrás do arquivo, o meu rato a aparecer por baixo do armário, onde um dia confundi uma cobra rateira com uma corrente de 2”, o meu rato a não se deixar ver, mas a tamborilar com as patinhas do outro lado da secretária, o meu rato a deixar caganitas em cima do router. 

O meu rato, que a bem dizer era só um tramelo que nem para uma sandes chegava, a fazer-me passar os limites da paciência, e a tornar-me autoritária, a fazer exigências absurdas, e a acusar tudo e todos, para além do que é razoável. Enfim, uma semana nisto, e que se fod@ o rato, vamos mas é todos de fim-de-semana.

Na segunda, antes do escritório, faz-se a ronda para ver se está tudo em modo de funcionar. Não estava. 

Deixaram a tina do ácido lá fora, a tempestade encheu-a com água e o meu rato boiava lá dentro. Sei que era ele. Mesmo sem pelo no focinho e todo inchado, sei que era ele. 

Acabou-se o rato.

Senti-me bastante culpada.

 

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Pardelhas

por esquisita, em 03.11.25

 

A propósito do fim que as coisas levam…

 

Quando era próprio nomear animais segundo os rios e guardar para as pessoas os nomes próprios de gente, já se sabia que Pardelhas, não era o mesmo que Tejo, Sado ou Mondego, por não constar no rol dos principais, nem sequer dos afluentes em qualquer das margens, que deviam, por esses tempos, estar prontos na ponta da língua, para apresentar a revista escolar. Contudo, soava a muito bom nome, para muito grande vontade. 

Assim se pensava, quando se deu o caso de ser necessário ir buscar o Pardelhas a Setúbal, dizia a memória, mas a verdade manda que seja, a Viana. É claro que ninguém disse que ia buscar um cão e a raridade do facto, só por si, deveria ter dado origem a uma cabazada de questões cheias de curiosidade. Ninguém disse, ninguém prometeu, e de tanto se desejar talvez nunca se tenha sequer chegado a pedir, confiando na adivinhação dos desejos. Se não se perguntou foi para não estragar a surpresa de fazerem surpresa. Para acreditar que fosse, era preciso não perguntar e esperar. 

Foi-se buscar o Pardelhas, e na verdade foi ele que trouxe alguém amarelo, descomposto e culpando tintas e graxas, cheiros de coisa nova em folha, por não se ter aguentado ao balanço. Mas onde está ele? Na Gafanha, amanhã levo-te lá!

O Parelhas não era um cão. O cão só veio mais tarde, e chamaram-lhe Nero, que até é nome de gente, ainda que mais próprio que o Tiago da vizinha.

 

…alguém me veio contar, que está a apodrecer junto a uma das milhentas ilhas que o Chile tem.

 

 

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Outra vez o Calendário

por esquisita, em 20.10.25

 

Se por acaso, anteriormente, alguém leu o Calendário , sabe que começou com outros vagares e desta vez não lhe vai encontrar mais do que quatro novas entradas (embora uma delas valha por outros tantos dias).

Cada uma a sua vez, apareceram-me estas datas, que por não terem sido procuradas, me trouxeram uma pouca de alegria, miúda, mas saborosa. Agarrei e juntei-as ao calendário.

Não sei como se escolhem os dias vividos nos livros, – porquê este e não o outro? não seria o dia seguinte mais propício? Ou, quem sabe, fosse anterior menos ao jeito daquilo que lhe está destinado – só quem faz dias sabe que data lhes dar. De qualquer forma, tenho para mim que tudo o que está escrito só acontece no exato momento em que é lido, pode por isso suceder em qualquer data.  Não antes, nem depois, ou até nunca.

Desta embrulhada de ideias podia concluir ser sem sentido ordenar datas lidas num calendário, ainda assim fazê-lo traz-me aquela alegria sem motivo que torna coisa nenhuma  num grande achado. Não a quero desperdiçar.

 

Calendário (outra vez)

 

Janeiro 

“Em 8 de janeiro, Utterson jantou na casa do médico com poucos amigos, entre os quais Lanyon, havendo o anfitrião olhado para eles como nos velhos tempos em que o trio era inseparável. No dia 12, e de novo no dia 14, o advogado encontrou a porta fechada. "0 doutor está confinado em casa disse Poole, "não está vendo ninguém" No đia 15, tentou mais uma vez, não obtendo sucesso; e, acostumado nos últimos dois meses a ver o amigo quase diariamente, seu retorno à solidão o deixou ansioso. Na quinta noite, recebeu Guest para jantar e, na sexta, foi à casa do dr. Lanyon.”

Robert Louis Stevenson

O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde

“No entanto, se fôssemos irmãos, certamente seríamos gémeos, visto que, após deixar a escola do Dr. Bransby, soube acidentalmente que o meu homónimo nascera em 19 de Janeiro de 1813 - e a coincidência é notável, pois trata-se precisamente do dia em que eu próprio nasci.”

Edgar Allan Poe

William Wilson

“Toda a gente, no entanto, esteve de acordo para considerar estas adendas como cláusulas de estilo e na noite de 25 de Janeiro uma alegre agitação encheu a cidade. Para se associar à alegria geral, o prefeito deu ordem para que fosse restabelecida a iluminação do tempo em que havia saúde.”

Albert Camus

 A Peste 

Fevereiro 

Naquele mesmo dia (3 de Fevereiro de 1893), Van voltou a gratificar o já bem azeitado porteiro a fim de que ele respondesse a quaisquer perguntas sobre Veen, formuladas por qualquer visitante (e em especial pela viúva de um dentista que costumava passear com um cão-lagarta), com um breve grunhido de total desconhecimento. O único personagem que Van tinha esquecido de levar em conta era aquele velho patife comumente retratado como um esqueleto ou um anjo."

Vladimir Nabokov

Ada ou Ardor

Março

“A 9 de Março de 1711, um tal James Welch desceu ao meu camarote e disse-me que o comandante ordenara que eu desembarcasse. Procurei em vão discutir com ele; nem sequer me comunicou o nome do novo comandante.” 

Jonathan Swift

As Viagens de Gulliver

Abril 

“O bebé de Muriel nasceu no dia 27 de Abril. Um rapaz: Thibaut. Decididamente, Igor Dimitrievitch não conseguia habituar-se a este nome. Foi Bernard quem lhe telefonou a dar a notícia. Ele exultava do outro lado do fio:

-Tem um bisneto! Muriel suportou lindamente o parto! A criança é esplêndida: quatro quilos!”

Por mais que Igor Dimitrievitch se esforçasse por atingir uma alegria apropriada, tudo nele permanecia frio. Este recém-vindo ao mundo não lhe era nada. Como havia de se interessar por um ser que nem sequer veria crescer?

Henry Troyat

O bater solitário do coração 

Maio

"Às nove horas da manhã do dia 1 de Maio de 1919, um jovem dirigiu-se ao empregado dos quartos do Hotel Biltmore, para perguntar se Mr. Philip Dean lá estava hospedado e, se estava, se poderiam ligar-lhe o telefone para os seus aposentos. “

F. Scott Fitzgerald

A Década Perdida

 

“Após três anos na expectativa de que as coisas melhorassem, aceitei uma oferta vantajosa do comandante William Prichard, que iria rumar o seu Antelope para os mares do Sul. Zarpámos de Bristol no dia 4 de Maio de 1699. De início, a travessia correu sem problemas.”

Jonathan Swift

 As Viagens de Gulliver

Junho

“Era uma composição delambida, de um sentimentalismo reles, com um ar tísico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E, terminando, dizia-lhe que não era "nos esplendores das salas" ou nos "bailes febricitantes" que gostava de a ver; era ali, naqueles rochedos, “Onde todos os dias ao sol posto 

Eu vejo adormecer o mar gigante” 

— Que bonito, hem! 

Ficaram caladas, com uma comoçãozinha. 

Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente: 

— Farol da Guia, 5 de Junho

Mas o relógio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, atarantada, meteu o poema no seio.”

Eça de Queirós

O Primo Basílio

Julho 

“Foi nesse mesmo dia que Miss Hurst pôde registar no seu caderno de notas o sintoma fatal que espreitava no crescimento da exaltação amorosa de Adriano. Transcrevo:

15 de Julho de 1946

Enfim! Primeiro sinal de licantropia.”

Natália Correia

A Ilha de Circe

 

“Ora, na tarde de 15 de Julho de 1689, o abade de Kerkabon, prior de Nossa Senhora da Montanha, passeava à beira-mar com a senhorita de Kerkabon, sua irmã, para tomar a fresca. O prior, já um tanto avançado em idade, era um excelente eclesiástico, muito amado pelos seus paroquianos, depois de o ter sido outrora pelas suas paroquianas. O que lhe valera sobretudo grande consideração é que era o único clérigo da província que não precisava ser carregado para o leito depois de cear com os seus confrades. Sabia muito corretamente a sua teologia e, quando cansado de ler Santo Agostinho, divertia-se com Rabelais: de modo que todos diziam bem dele.”

Voltaire

O Ingénuo

(História verdadeira, tirada dos

manuscritos do padre Quesnel)

Agosto 

“Por volta de 15 de Agosto tinham diminuído notavelmente em intensidade e espessura os vapores projectados para o céu. Dias depois já o terreno exalava apenas ligeira fumaça, último alento do monstro encerrado no seu túmulo de pedra.”

Júlio Verne

Da terra à lua, viagem directa em

97 horas e 20 minutos 

 

“Algo estava a suceder aos nascimentos do Campanário, porque a dezoito de agosto, muito antes de completar a gravidez, foi nascer ao hospital novo a menina de senhora Luisinha do Guerra, a quem dera uma freima. Nascera tão precipitada, tão à pressa e pequenina, que a meteram numa garrafa para acabar de deitar corpo e sobreviver.”

Valter Hugo Mãe

Deus na escuridão

 

Setembro 

“O dia em que devia realizar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de setembro.

Faltavam, pois, dez dias. Laura propôs ao marido que não os passassem em Saint-Malo. Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios?    

Alfred Sirven

O Romance d'uma cantora

 

“O telegrama chegou ao Funchal através de Londres, dirigido ao cónego Nicolau Villa e assinado por Harry Bradshaw, médico. Dizia: “Marcos informa morte Raquel dando à luz Clara dia 29 Setembro stop Marcos criança e ama seguem Madeira dia 12 paquete Annie.” 

Helena Marques

O Último Cais

Outubro 

"Van recebeu este telegrama audacioso junto com o café da manhã no sábado, 10 de Outubro de 1905, no Manhattan Palace em Genebra, e naquele mesmo dia partiu para Mont Roux, no lado oposto do lago. Lá se instalou no hotel de sempre, Les Trois Cygnes. Seu concierge, um homenzinho frágil e de idade quase mítica, havia morrido durante a última estada de Van, quatro anos antes; em vez do rosto enrugado de Julien e do discreto sorriso de misteriosa cumplicidade que brilhava como uma lâmpada por trás de um pergaminho, foi a cara redonda e rosada de um ex-mensageiro, usando agora uma sobrecasaca, que deu boas-vindas a um Van velho e gordo."

Vladimir Nabokov

Ada ou Ardor

 

“E, antes de mais nada, ocorre ponderar que António José goza de uma reputação sobre palavra. A fogueira de 18 de outubro de 1739 iluminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os olhos; a tragédia do Sr. Magalhães vulgarizou-o entre as nossas platéias de há 40 anos; mas só os estudiosos o terão lido, e nem todos, porque a tarefa exige constância e esforço, embora de certo modo os pague. Pode-se dizer, sem erro, que ele pertence à família dos poetas cômicos, qualquer que seja o grau de parentesco, — com a circunstância que era um desperdiçado, — trocava a boa moeda do cômico pelo cobre vulgar do burlesco.”

Machado de Assis

Relíquias de Casa Velha

 

Novembro 

Nesse ano, ao nono dia do mês de Novembro, uma mulher de seu nome Julia Swane tornou-se o principal motivo de conversa na cidade quando foi presa como bruxa.

Era acusada de ter transformado a sua filha Glynna, de dezasseis anos, num cavalo voador, tendo-a depois montado tão brutalmente, que a rapariga ficara para sempre estropiada.

                                              Noah Gordon

                                                   O Físico

 

“O dia 17 de Novembro de 1897, diz Brita e Kristoffer põe um braço em volta dos ombros de Brita lentamente Kristoffer e Brita começam a ir pela Estrada Pequena acima, e Brita leva Asle nos braços

0 Asle morreu a 17 de Novembro de 1897, diz Brita

E nasceu a 17 de Novembro de 1890, diz ela

e Kristoffer pára, e Brita pára, ficam a olhar para a terra

castanha, e então a porta da Casa Velha abre-se e aparece uma velha que sai e se detém na laje da entrada e Kristoffer

olha para ela

Partiu, o Asle partiu, Avó Ales, diz Kristoffer”

Jon Fosse

é a ales 

“Acabei por ceder, pensando ser a melhor solução. A 24 de Novembro abandonava Lisboa a bordo de um barco mercante inglês, sem sequer indagar o nome do comandante.”

Jonathan Swift

As Viagens de Gulliver

Dezembro

“Assim abandonei a minha ilha em 19 de Dezembro de 1686, como vi nos cálculos que fiz no buque, após ter nela vivido vinte e oito anos, dois meses e dezanove dias. Fui libertado deste segundo cativeiro no mesmo dia do mês em que anteriormente fugira, numa chalupa, da escravidão dos mouros de Salem.”

Daniel Defoe

Robinson Crusoe

 

“Tornou-se bem poética, para mim, essa Amarante, depois de haver desaparecido com o século XIX, ao bater a meia noite de 31 de Dezembro de 1899. Nesse momento, que podemos considerar extraordinário, um estalido, como um tiro de pistola, fendeu, de lado a lado, a mesa do refeitório, pouco distante dum pequeno fogão de ferro, em volta do qual, eu, meus pais e irmãos, esperávamos ouvir, na vizinha torre de São Pedro, a última badalada das doze, aquele dia em que, no silêncio nocturno, se extinguiu, com todo o século das luzes. Entre a última badalada fatal e o estalido da mesa, medeou apenas o tempo bastante para se distinguir um som do outro.”

Teixeira de Pascoaes

Uma fábula:

o advogado e o poeta

 

Feliz Ano Novo!

 

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Não está!

por esquisita, em 08.10.25

 

Ir à cama tarde, já passada a hora, amanhã é dia como todos. Cada um na sua margem, sentados costas com costas, ela tomba para direita, lado onde espera não amarfanhar tanto o coração. Ele, confiado no saber da cova mole que se forma entre a crista da bacia e as escadinhas das costelas, deixa-se cair para trás. A cabeça descansada na cintura dela, como se ali prentecesse. O resto, um braço para cada lado, o tronco dividido em duas pernas a escorrer na beira do colchão, os pés a pingar a um palmo do tapete. Anda, cobre-te! Qualquer monstro ainda desperto, desses que à noite se abrigam do frio por debaixo das camas, o pode agarrar pelo tornozelo, levá-lo. E ela atrás para onde for, que também está agarrada pela cintura. Não está frio! Mas tão rápido se torna o respirar profundo em ronco áspero que não mexe, não ouve, Não está! nem o carro do lixo, lá fora, a emborcar aos solavancos contentores de tudo o que já não serve, e agora tanto se ouve porque, Está a janela aberta! Fala sozinha, olhos fechados para não ver o verde irrequieto da farmácia, sempre a dar horas, a dar calor ou frio conforme esteja, a dar cruzes que são verdes de tanto piscar. É só para si, mas em voz alta, pensa a falar, Hoje dormimos com a janela aberta. É da serra que nos vem frio, acima de nós, que vivemos com água pelos calcanhares, qualquer outeiro já é montanha. É de lá que vem o frio. Antes respondeu, Não está!, está respondido, mesmo sem ser ouvido, Não está!, não se vai desdizer.

Mas pela janela, tanto entra como sai.

Melhor o monstro que nos leve inteiros, seja lá para onde for. Pior o corpo frio, vazio, como morto ao acordar, que o frio da serra.

Vai fechar a janela, não nos vá fugir a alma no dormir!

Estás parva!

Não estou!

 

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Uma longa história

por esquisita, em 23.09.25

 

Seis meses ao mar

seis filhos em terra

mais a mulher

seis meses só 

Sempre só

uma

campanha

Seis meses ao mar

doze contos de reis

Outros seis

não largo a costa

hei-de ir ao rio

prá gente se governar

Só mais esta

prometi

em outubro

já cá estou!

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Ó Saul, tu andas a mangar comigo!

 

 

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Outro caminho

por esquisita, em 10.09.25

 

Tocam sinais.

Estamos em cidade nova, crescida em terra antiga, sítio onde a morte de gente ainda merece que os sinos dobrem, mesmo que, por estes dias, poucos lhes compreendam o falar. Três badaladas solenes, espaçadas e fora de horas, dizem ser homem a criatura que entregou a alma.

Portas adentro, só sabe o que lá se passa  quem aí mora. Talvez em primeiro se tenha ido acender a lamparina que alumia a Senhora, porventura até se pode ter murmurado uma qualquer reza pelo defunto, seja ele quem for. O certo é que não se pode uma pessoa deixar ficar no desconhecimento, nem continuar a enviar preces ao céu, sem saber por intenção de quem.

Abre-se a janela.

O bom de viver num beco, é ter vizinhança a quem perguntar ou pedir “ Ó meu menino, vai-me ali fazer um recado!”, mas, por má sorte, lá fora não anda ninguém. Nem mulheres a estender roupa, nem miúdos a jogar à bola. Só lá ao fundo, encostado à esquina com a travessa do arco, um rapazote já graúdo, todo torto das costas e, ao que parece, um pouco mouco, ou mesmo tanto que é preciso berrar-lhe três ou quatro vezes “Ó rapaz, tu estás-me a ouvir!”. Meio assarapantado, tira qualquer coisa dos ouvidos, e grita de volta “Então, onde é o fogo!?”, que é uma maneira muito sem modos de perguntar para quê tanto alarido. Não se faz caso da desconsideração, “Vai-me lá cima, à capela, a saber quem se finou, se fazes favor!”, meio ordem, meio pedido, a ver se o rapaz traz notícias do sucedido.

Mas ele, nada.

Torcido como um ponto de interrogação, torna a pregar os olhos no telemóvel. “Anda, avia-te que na volta tens à tua espera um pão com doce de tomate!”, isto era isco para lhe dar ânimo, desatar a correr pela ladeira acima e voltar, num instantinho, pela gulodice. Mas do moço só veio uma valente gargalhada. Já ninguém leva os miúdos à certa, com papas e bolos. “MALCRIADO!” e já prestes a bater com as portadas, aproxima-se o cachopo do peitoril, sem nunca erguer a cabeça, nem dar sossego aos polegares no ecrã “ Tenha lá calma, estou a consultar a página da paróquia!”

 

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Dizem

por esquisita, em 05.09.25

 

que os homens não conseguem fazer mais do que uma coisa de cada vez. 

É errado!

Os homens, ou pelo menos este homem consegue em simultâneo fumar, consultar o telemóvel, e ainda, avaliando pelos fones, ouvir música, enquanto anda de bicicleta.

Podem dizer que este é um caso sem exemplo, uma espécie de habilidade de circo, alcançada à custa de muito treino, que seria impossível repetir em situações imprevistas.

Mas só por má-fé se pode insistir na calúnia.

Ele consegue também, ao mesmo tempo e sem ensaio, gritar obscenidades, tirar fotografias para publicar nas redes, cuspir dentes e sangue, e dar pontapés na traseira do carro que parou no STOP.

Se não todos, quanto mais não seja este homem consegue mesmo fazer várias coisas ao mesmo tempo.

 

 

 

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Filhos

por esquisita, em 18.08.25

 

Filhos, para que vos quero! 

(Frase ouvida em qualquer lado, e a que não se deu a devida atenção)

Mas que filhos são estes?

Filhos, para que vos quero!

(volta para se instalar no pensamento, a ecoar como um refrão orelhudo)

Estes são os filhos que temos?

Ou os filhos que todos somos?

Filhos, para que vos quero!

(Pressuposto de alguma finalidade. Não tanto o porquê, mas para quê)

E para que os queremos?

Para que nos querem?

Filhos em quem se investe?

 Dos quais se espera algum retorno?

Filhos, para que vos queremos!

(Desabafo bem humorado ou lamento dorido)

Cansaço em pequenas e grandes inquietações?

Filhos esquecidos de o ser?

Filhos, para que vos quero! 

(Expressão deturpada, que lembra o equivalente “Fugir a sete pés”)

Os filhos que escolhemos não ter?

Os que não conseguimos evitar querer?

Filhos, para que vos quero! 

Filhos, para que vos quero?

 

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Lá vai ele...

por esquisita, em 11.07.25

Todo azul, todo confiado ao céu!

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Férias

por esquisita, em 04.07.25

 

Quero férias,

mas não quero umas quaisquer,

dessas de ir para longe,

viajar, conhecer outros lugares. 

Quero-as já ali do outro lado.

 

Em certas tardes, como a de hoje, as sacramentais três horas reservadas à digestão empurram-nos mata adentro.

De manhã foi-nos negado o mar por não se ver um palmo à frente dos olhos, e embora a maré esteja vazia, em mês sem érre nem aos cricos se pode ir. Deixamos-nos ficar na praia do junco, entretidos a despernar caranguejos, a atirar pedras às gaivotas, a conjecturar sobre a possibilidade de atravessar o canal a vau. A outra margem está desfocada pelo nevoeiro, o que não altera as hipóteses de sucesso. Por mais mirabolantes que sejam as teorias, só se pode concluir que acabaríamos atolados. Está visto que daqui não avançamos por nosso pé, e o que temos mais à mão é esta espécie de lama de cheiro inconfundível e aspecto repugnante, contudo, muito agradável ao toque por ser morna e macia. De uns salpicos descuidados, para desenfastiar de tanta conversa e tão pouca ação, num instante se passa a uma feroz batalha de lodo que nos deixa irreconhecíveis. São tempos esquecidos nisto e a javardice só acaba com um banho de mangueira no pátio, porque se avizinha a hora do almoço. Não há línguas de perguntador a querer saber o que é a comida. 

Pouco mais que madrugada, nós ainda na cama, já se ouve da cozinha, Traz-me um robalo! Não há resposta à provocação. Daquela pescaria de água salobra não virá mais do que taínha mole. Seja que peixe for, o almoço por esta hora já estará a dar entrada na costa, e o barquinho cansado de tábuas gastas só se desamarra por pretexto. Antes de voltar a casa há-de primeiro passar na lota, para remediar o que não pescou. Todos sabemos que assim é, e no entanto à saída, ainda se grita da porta, Pesca-me um robalo, já escalado e salpicado! É só desafio por graça e sem maldade

Se nos tivéssemos levantado antes, tínhamos assistido ao verdadeiro resmungar enjoado, quando os cartuchos da serradela saíram do frigorífico onde ficaram desde ontem. Isso sim, é uma porcaria sem graça nenhuma. Mas ficamos na sorna até que as primeiras buzinadelas da padeira se vieram sobrepor à ronca. Dizem que é bom que o apetite matinal vença a indolência, por isso ir ao pão faz parte das tarefas que nos estão destinadas. Aos domingos saltamos da cama, ávidos das regueifas que a padeira traz embrulhadas em panos muito brancos. Hoje a chegada da carrinha, não atrai abelhas gulosas. No saco só vêm uma dúzia de padas e uma rosca de pão, para além um canto de broa, que mais logo estava destinada a  aparar o pingo à sardinha, mas acaba esfarelada de tanto lhe nicarmos a côdea. Também não faz mal, porque hoje o barquinho trouxe caldeirada. Comemos com vontade, que é a maneira mais gostosa de comer.

É então, em tardes como esta, por altura da sesta, que depois de testar a capacidade da rede suportar todos e mais um, ao ouvir os pinheiros chiar derreados com tanto peso, nos lembramos da mata para ultrapassar as malfadadas três horas. Mas há cuidados a ter, quem se quer embrenhar pelo pinhal, não pode falar da intenção de encontrar a enorme duna que nos guarda do mar revolto, nem lembrar gatos bravos e cães selvagens, ou temer o homem a cavalo que nos vai recambiar a casa pelo caminho do aceiro. Vamos só ali, às pinhas para acender o fogareiro, e na volta trazemos uma mancheia de camarinhas para o lanche.

 

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