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Agora

por esquisita, em 16.01.22

 

Forte Muro, falta-te força, sobra-te a sombra

É a mim que queres ouvir?

Guardaste com fogo a fraca fronteira

da casa caída

Agora,

receias ruir...

Foste frente caiada, cal viva

na parede suja e esquecida

Agora,

atormenta-te o porvir...

Foste barreira, muralha erguida

no erro de temer errar

Não temas agora perguntar

O que pode a paliçada

que não se pode transpor?

Pode o tempo, pode a vida?

Pode abrigar o amor?

Fraco Muro, se me ouves,

não esperes ouvir por mim,

as respostas que procuro, mas não tenho

Sou só perguntas sem fim!

 

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Sono

por esquisita, em 10.01.22

 

Nasce a luz que lava o escuro e eu lavar as chávenas adormecidas pela madrugada. Água fria, cabeça em água, mãos dormentes...

Então, rosnar maldições aos prazos, que não dormem e aos profetas do fim do mundo, que depois do anúncio e do alarme, devem estar a dormir confiados na minha mania de ser certa, mais no vício de provar o comprovado, que não basta ser igual sem ser melhor.

Depois, jurar que não se repete e tornar a encher a chávena e manter a cama vazia e umas quantas ofensas à estátua, que não quero nem se ergue, quando me deitar para sempre...

Mas quem chegou até aqui… é só mais um bocadinho e um cinzeiro que dorme quase cheio e uns quantos insultos à sorte de sonhar sonho diferente como se não fosse eu a acordar o pesadelo.

Feitas as contas, não custa nada,

o mundo que acabe amanhã, bem disposto e bem desperto,

e bem pode acordar acabado porque eu vou estar a dormir, é quase certo!

 

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Onde estiver

por esquisita, em 07.01.22

 

Do céu, quem possa,

bichos que cantam

fogo ou fumo

Da terra, quem saiba,

animais que ouçam

vento ou chama

Do fundo, quem acredite,

seres que foram

carne e lama

Que procurem,

faz-se tarde!

Que me tragam,

não demorem!

Não quero mais

que não seja tudo

nem nada mais

que não seja

semente de vontade!

 

(Ainda hoje)

 

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Prenda

por esquisita, em 26.12.21

 

Chegou hoje e por amigo, que o próprio não se pôde fazer presente, uma singela cesta de vime, a transbordar frutos secos guardados em casca rugosa.

Nem tarde nem cedo, chegou como cuidado que me esqueci de esperar, para trazer sabor de lembrança.

Inconfundível cheiro a vime entrelaçado, irresistível sabor de fruto escondido e no fundo, imperdível Viagem a Portugal.

Dentro, entre duas páginas sem número, que logo quis reconhecer, uma folha rasgada de agenda sem uso, desejava:

"Que te saiba às nozes!"

Prenda preciosa, achei-a tão embrulhada em cuidado e carinho, que não sei se mereço nem como agradecer.

 

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Destino

por esquisita, em 20.12.21

 

É só ficar calada e ouvir:

 

"Se escapaste ao teu destino, é porque estava escrito!"

"Escrito a onde? Não me queres dizer?

"Escrito nas sortes da gente, ora essa!"

"Tá calado, homem, que não sabes o que dizes! Se escapei não estava escrito, se estava escrito era o destino..."

"Deixa-te bazófias e vai mas é agradecer!"

 

É só ficar calada e esperar...

 

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Por Escrever

por esquisita, em 18.12.21

 

Se não puderes vir, manda carta que seja comprida e redonda, como um canudo, para eu te poder espreitar...

Carta por Escrever, não tem boa nova nem notícia de desgraça, nem mimo doce ou recado azedo, pequeno engano ou verdade confessada.

Falta-lhe a letra e a tinta, o caro amigo, excelentíssimo, meu amor. Melhor é que se faça ao mar em barquinho branco de papel dobrado.

Todos sabem que o mar é redondo.

Sim, o mar só pode ser redondo, para trazer e para levar!

Carta por Escrever é branco e só papel, de pouco lhe serve navegar.

Para mais, Carta por Escrever não tem saudade sem fim nem lembrança de coisa grande ou pequena, nem banalidade miúda ou assunto de valor. Tem em falta o selo e o envelope, o beijo e os abraços, cumprimentos cordiais.

Antes se lançe ao céu como avião de papel branco dobrado.

O céu deve ser redondo, e até já ouvi dizer que o fizeram redondo, para ir e para voltar!

Carta por Escrever é muito branco e só papel, pouco lhe aproveita voar.

 

 ...sabes que gosto de histórias redondas e mal contadas!

 

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Desejos, necessidades, satisfação

por esquisita, em 16.12.21

 

Fim de um dia na bola de lama e já outro começou. Cansada do formigueiro, ainda ouço o gigante discorrer sobre os mortais: 

 

"...a nenhum vi que não tivesse mais desejos que verdadeiras necessidades, e mais necessidades que satisfação."  

 

 

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Água

por esquisita, em 11.12.21

 

20211209_125221.jpg

Água que não se cansa

Maré vaza, meio dia

Arrepio de vento norte,

folgo inteiro de maresia

Enchente rasa de lodo,

negro, morno, macio

Marola doce salgado,

tanto mar que foge ao rio!

 

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8 de Dezembro

por esquisita, em 08.12.21

 

Tenho pinheiro enfeitado

e fitas e luzes e brilho

Tenho menino de barro

estendido nas palhinhas

Falta mãe

mas tenho o dia

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Chuva

por esquisita, em 01.12.21

 

Chove uma chuva de já não ser, a molhar sem piedade

Chove um frio de já não estar, a gelar o caminho alagado 

Chove um vento de já não poder, a soprar o que restou

Chove, mas não sou eu

Enquanto for piedade

Enquanto houver caminho

Enquanto restar poder

Chove, mas não sou eu

Porque eu não sei chover 

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