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O Poço

por esquisita, em 29.11.21

 

Contas-me coisas simples, que só sei complicar...

 

Caiu ao poço, de pouca água gelada, um menino inquieto a experimentar. No fundo do medo encontrou a lembrança do recado e da avó. Não grita pelo frio nem pelo susto mas chora baixinho no escuro, porque ter caído no perigo descuidado.

Fora do poço, falta o menino que a avó tinha avisado e que busca sem sossego e sem saber onde encontrar.

Onde estará o menino? Chama por ele aflita e sem resposta, que o menino bem a ouve mas não a quer ver zangada. Sem descanso, não desiste de o achar. Onde estará o menino? Descobre-o no fundo do poço, onde não devia estar!

Não se zanga a avó, que é maior a aflição. Anda longe, tão longe que só pode tardar, quem lhe possa valer nesta hora.

Então, salta ao poço a avó que nunca lhe vai falhar porque sozinho não se aguenta o menino, e a vida é para guardar.

Juntos no frio do poço, abraçados na escuridão, a avó canta para espantar o medo embalando o menino em oração. Unidos cantam os dois, como quem chama pela luz, tentando enganar o medo com a esperança que demora.

Chegam, pela hora do almoço e não há o que almoçar. Faltam o menino e a avó. Onde podem eles estar? Mas antes que se levante o alvoroço, ouvem o poço a cantar e tudo acaba bem porque logo correm para os ajudar.

 

...passou o poço e o tempo e a avó volta a saltar. Foi só salvar um menino e não deve demorar.



  

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Lembrei-me de si, Eng.!

por esquisita, em 05.11.21

 

Podia falar por horas e reforçava o que dizia, com gestos largos e voz grave.

O assunto era recorrente e quem já estava habituado resistia aos tiroteios intensos dos ataques surpresa, abrigando-se por detrás do estirador.

Eu, que tinha chegado há pouco, via a firmeza do traço sacudida  pelas explosões repentinas. As descrições sangrentas salpicavam a película com manchas de tinta e os quilómetros em marcha sob sol escaldante, interferiam com o rigor milimétrico dos cálculos.

Era impossível ficar indiferente: inquietava, doía, arrastava para um passado que não era meu. Repetia, em silêncio:

"Não quero! Não quero!"

A minha recusa era imatura, incapaz de compreender o funcionamento de uma máquina obsoleta, alimentada pelo horror da memória. Mas estava a começar em campo aberto, e não podia falhar na leitura do projeto sem perguntar porquê.

A resposta foi breve

"Porque volto lá todas as noites!"

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Sem justificação

por esquisita, em 31.08.21

Não importa quanto tempo já passou. Recordo, claramente, esse dia. As flores na jarra, antes de sair, a promessa de voltar contigo, a surpresa de ver afastarem-se os cuidados constantes, o conforto da recompensa com iguais cuidados. Não importa quanto futuro possa ainda vir, enquanto me mantiver inteira, vou guardar esse dia.

O meu corpo pequeno junto ao seu peito, o xaile que nos unia, os passos pelo corredor, a porta a abrir, o pássaro na gaiola.

Não sabes de que pássaro falo? 

Ouviste contar tudo o que fizeram para que eu não partisse, e sabes que podíamos nunca nos ter cruzado, mas nunca te falaram do pássaro?

Soltei-o, assim que voltei à vida. Pequena demais para reconhecer a alegoria, ainda hoje me espanta o paralelismo. Queria o pássaro para mim por isso deixei-o voar, depois chorei.

Faço as contas da minha culpa, estremeço ao perceber que só resto eu para guardar a memória desse dia. De tudo me recordo mas não és tu o centro. Uma ave, sem nome, tomou conta do que devia ser teu. Éramos poucos mas éramos tudo. Tão cedo, só ficámos nós.

Queria tanto dar-te justificação para a minha falha. Desculpa, minha irmã.

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João Pestana

por esquisita, em 13.08.21

Numa das paredes da cozinha da minha avó, entre sardinhas de louça e limões vidrados, estava pendurado um prato grande e fundo onde mora, em pinceladas ingénuas, de cores que não sei descrever, um homem de olhos pequeninos e sorriso tímido.

 

Ó avó, aquele é mesmo o João Pestana?

Pois claro que é!

Como é que sabes? Ele não fala!

Contou-me a minha avó, que foi quem o trouxe cá para casa! E olha que é verdade! Aquela bacia era para o escoado da ceia. Quando estava pronta, chegávamos os mochos ao lar para comer e…

Não comiam à mesa!?

Até podíamos comer no chão, que tínhamos sempre a cozinha bem asseada e bem juncada! 

Ah!...E depois?

Depois íamos comendo até ver o fundo à bacia, quando o…

E comiam todos do mesmo prato!?

Claro, rapariga! Que mal há nisso? Mau era se não houvesse o que comer!

Ah!...e então?

Então, o João Pestana aparecia, todo envergonhado por o termos descoberto. Ficava a olhar para nós com aqueles olhos pequeninos e dava-nos logo o sono. Era a hora de ir à deita!

 

Entro pé ante pé na cozinha que se fez escura e não sinto o tapete de junco fresco nem o cheiro a erva doce que só conheci na rua em dia de Ressurreição. O lume apagado junto ao lar de mármore muito gasto pelo uso, os mochos alinhados junto à parede e em cima pendurado entre as sardinhas assadas e os limões, vive o homem de olhos pequeninos e sorriso tímido.

Tudo escuro, tudo silêncio, tudo calma.

Aí, João Pestana, João Pestana, que os adormeceste a todos!

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Fruto Raro

por esquisita, em 21.07.21

foto2+.JPGMal nos conhecíamos e já ela se ria do meu espanto.

Gargalhada sumarenta, que nada faz para se conter ao procurar sentir-me o gosto na provocação:

"Que sabes tu destes montes nesse tempo? Se a terra não as dava era luxo, sim senhora!"

Eu, nem sempre doce, não me deixo amargar pelo ouro da discórdia. Aceito o desafio nos frutos raros e reconheço o acerto nas escolhas.

É por isso que agora, nos podemos reunir no desfastio, gozando o sabor do mais honroso prémio, em dia de corridas, da mais carinhosa prenda, em noite de Natal:

A Laranja!

 

 

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Dia de raiva

por esquisita, em 14.07.21

IMG_20210714_134600.jpg

 

Há coisas que não se dizem e muito menos se podem escrever

 

Onde quer que ela esteja…

Onde quer que ela esteja…

Não me repitam: onde quer que ela esteja…

Eu sei onde ela está! Também lá estavam, também viram a terra na minha mão,

Como fui capaz?

Não me digam que foi cedo demais! Não existe tempo justo!

Não me falem de estrelas mais brilhantes, 

Já lá estavam ontem, são as mesmas, brilham indiferentes!

Não me convençam a guardar a vida na memória,

Já vi a vida dispensar a memória, no mais cruel existir sem ser.

Não me confortem o sofrimento com o sofrimento que conhecem...

Quero a dor, é minha! Não quero que nada nem ninguém a diminua!

 

Mas porque não me avisaram do desejo de escavar, de desenterrar, de desfazer o que está feito?

 

Porque não me explicaram a fúria de rasgar o céu e explodir constelações? 

 

Porque não me disseram da raiva de ter ficado para trás, num abandono injusto?

 

Sempre soube que a ousadia seria esmagada pela impotência, ainda assim, ousei. Não ouvi...

Agora ouço, claramente:

Nada podes!

 

Disse e escrevi

 

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Primeiro dia

por esquisita, em 30.04.21

 

"... hoje é o último dia…" foi a primeira frase que ouvi no rádio, enquanto tentava acordar...

Já perdi a conta ao número de vezes que anunciei a desgraça. Nuns dias com mais calma, com detalhe e recomendações adicionais, noutros poupando nas palavras, resumindo o essencial, ganho coragem e faço a declaração.

Se a pergunta é feita hoje é hoje que tudo começa.

E amanhã pode ser:

"O que é isto tudo, que para aí anda?"

ou, em qualquer outro dia, qualquer outra pergunta, repetida na mesma inquietação sincera da primeira vez, aguardando por resposta. Se a resposta chegar hoje é hoje que tudo começa.

Eu hesito por uns segundos, avalio a força que tenho, peso os estragos que as minhas palavras podem causar e torno a ser o mensageiro da desgraça. 

A surpresa genuinamente repetida:

"O que nos havia de acontecer!"

É hoje o primeiro dia!

"Tudo o que muda amanhã"  leio na primeira página do jornal

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