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Parece redonda

por esquisita, em 23.02.24

 

Acordava tarde com o aroma de manteiga derretida. Eram os ovos mexidos do pequeno almoço a que não estava habituada, servidos num prato de porcelana antiga, que a avó pousava em cima da mesinha redonda para onde convergia o terno de sofás. O avô trazia uma das banquetas estofadas para que me sentasse e depois ia acomodar-se junto à janela, para me fazer companhia ao mesmo tempo que passava os olhos pelo jornal. Um perfeito absurdo, considerava o pai quando lhe contava aquela extravagância. Deixar uma criança tomar o pequeno almoço na sala de visitas, podia torná-la cheia de tiques e manias, dizia ele. Mas a avó estava decidida a fazer o que estivesse ao seu alcance, para eu me sentir em casa dela como uma espécie de princesa. Evitava dizê-lo para não criar conflitos, e quando era confrontada, argumentava com o facto de a pequena dimensão da mesa ser a mais adequada ao meu tamanho. Tudo aquilo me parecia muito divertido. Não tinha mais aspirações a ser princesa, do que outras fantasias no reino faz-de-conta onde podia ser o que quisesse. Gostava de tomar o pequeno almoço naquele compartimento poupado ao uso quotidiano, não tanto por me ser dado o privilégio reservado às visitas, mas sim porque me fascinavam as formas curvilíneas da mobília. Os pés dos sofás eram um arco curto e gordo como coxas de frango, mas a mesa assentava em  pernas ondulantes que imaginava pertencerem a graciosas bailarinas. Para mim, aquilo era o cúmulo da elegância. Foi por isso que fiquei com a mesa de centro da avó, onde agora pouso a querida laranjeira que me traz tantas dúvidas. Sei que se vinga com minúsculos frutos, tão perfeitos quanto azedos. 

Não sei se é mais correto aprisionar laranjeiras em vasos do que pássaros em gaiolas.

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Quando encontrei esta mesa, quase redonda, foi nas pernas que primeiro reparei. Que pernas tão delicadas para suportarem um tampo tão pesado!
A obra é de Vasco Araújo. Penso que o texto da Mariazinha a limpar talheres de prata é de Pepetela. Por ter cérebro de ovos mexidos, não tenho certeza. Se estiver enganada, peço desculpa.

 



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Notas 162

por esquisita, em 15.02.24

 

É indelicado importunar as pessoas com certos assuntos. 

Não me apetece escrever, irei até onde for capaz.

 

Primeiro foi a do Moisés. Tinha ele não mais de sete ou oito anos, quando a mãe saiu de casa para ir pagar uma promessa. Eu, naquela idade, conservava ainda a inocência necessária e suficiente para acreditar que as pessoas com propósitos piedosos, como era o caso de quem ia até Fátima a pé, ficavam a salvo de acidentes, guardadas por especial proteção superior. Estava errada.

Nunca tinha sido amiga do Moisés, antes conhecido e apontado como provocador de brigas e desacatos. Tinha medo dele. Ainda assim, quis que me levassem pela mão até a porta da capela para dar um abraço ao rapaz que estava lá dentro a despedir-se da mãe. Julguei sentir em mim o mesmo desamparo.

Não me tornei amiga do Moisés, depois merecedor de condescendência geral para qualquer falha, a coberto da perda. O meu medo transformou-se.

Diferente e sem nome, esse sentimento novo começou a maquinar na cabeça uma estratégia ainda mais ingénua: Se conseguisse partilhar da dor dos outros, poderia ser poupada ao meu próprio sofrimento. Continuei errada.

As circunstâncias acabaram por abrandar os modos brutos do Moisés. Com o tempo, depois da revolta inicial, deixou-se de rixas e lutas, para se tornar num adulto prematuro. Eu só tinha crescido um pouco e continuei criança aos olhos daquele miúdo a quem todos passaram a  considerar como um homenzinho.

Do medo nunca nasceu amizade.

 

Só mais umas linhas

 

A seguir foi a da Ana Maria. Eu mal conhecia a mãe dela, porque raramente saía à rua. Diziam que sofria da cabeça, diziam que tinha de dormir com a porta trancada, diziam que se devia ter guardado a chave. Diziam, diziam, diziam, e eu não entendia nada do que diziam entre gritos e choro, quando de manhã encontraram o corpo no canal, enterrado no lodo da maré vaza. Continuei por muito tempo sem perceber, não sei mesmo se alguma vez o irei conseguir.

Por mais que perguntasse, ninguém estava disposto a contar-me as coisas como elas são. Ia escutando meias palavras destinadas a poupar as crianças, tirava as conclusões possíveis: Sofrer da cabeça, não era ter enxaquecas como a D. Elvira, que se fechava às escuras, em silêncio durante três dias seguidos e depois ficava bem e cheia de fome por quase não ter comido durante tanto tempo. Não era a mesma coisa, exceto no escuro e no silêncio.

 

Estou a sentir-me enjoada, mas vá lá…

 

Depois, foi a da Rosarinho. Ao que a matou, ninguém gostava de chamar pelo nome. Tinha uma coisinha má, não na mama, mas no peito. A mãe da Rosarinho, bem se podia ter salvo, pensava eu.  

O marido era médico, conhecia muitos outros médicos no país e no estrangeiro, mas ela tinha pouco tempo e não quis…

 

P’ro c@ralhø, quem inventou que escrita ajuda!

Nem mais uma palavra!

ACABOU!





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Coisas

por esquisita, em 15.12.23

 

Coisa triste, primeiro Natal de orfandade
Coisa feia, ir cortar pinheiro à mata
para o fazer coroar com estrela de cartão

Por sorte, a fortuna antiga entope a pia
Fica a cozinha alagada, como manda a tradição

Vem o pastor, mago da chave inglesa
e as suas ovelhas com pezinhos de lã
Vem a lavadeira, de mangas arregaçadas
traz rodo e panos do chão
Secam as águas

Toca a banda uma marcha desafinada
ainda mais azul
Coisa estranha, que não se suspenda o Natal por falta
Coisa boa, o que ficou

 

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Redação

por esquisita, em 22.09.23

 

Chega o outono, já lá vem outubro, tempo de começar.

Se for linda, quase de certeza que é boa. No primeiro dia, tinha muito medo que ela fosse má, como a D.ª Celeste que ralha e bate, por ser feia. Ela põe as meninas dela de castigo, viradas para a parede com os joelhos no chão e manda fazer cópias durante o intervalo, sem lanchar. Quando chama burra e estúpida, fala muito alto, para se ouvir na escola toda e deixar as meninas envergonhadas e a chorar. A D.ª Celeste é má e feia, mas tão feia, que nem as contínuas gostam dela. A minha professora não é assim, fala baixo e com voz rouca por causa da alergia ao pó do giz, e porque é boa. Eu tinha medo, mas vi logo que era boa no primeiro dia. Depois de fazer a chamada, disse que nós todas juntas éramos os seus pintainhos. E não foi só isso, ela mandou guardar a régua de madeira na caixa métrica. Eu ainda não sabia o que era a caixa métrica, que estava ao fundo da sala por baixo dos mapas das terras e do corpo por dentro. Ao lado do quadro estava um esqueleto que assustava e por cima havia o crucifixo e os retratos de uns senhores muito sérios, sempre a olhar para nós, que assustavam ainda mais. Essas coisas ela não mandou guardar, mas pensei que a minha professora era boa, só por não querer a régua para bater. Olhei para ela e vi que era linda, parecia uma mãe com bata branca. Nós também temos bata branca, mas as batas das meninas apertam atrás com botões e com um laço e a bata das professoras tem os botões à frente e ao meio. A bata dos rapazes também aperta à frente, mas de lado e nesta escola não há rapazes. Têm uma escola só para eles. O avô conta que a escola dos rapazes foi feita para todos, quando era no tempo dele. O pai diz que não se pode deixar torto aquilo que nasceu direito e que está mais que na hora de fazer as coisas mudarem. O avô manda-o falar baixo, porque as paredes têm ouvidos e o pai não se cala e mete-se em trabalhos muito maiores do que a escola, que fazem a mãe ficar aflita. Eles falam e às vezes discutem, eu presto muita atenção, mas nunca os ouvi dizer nada sobre a maneira como as batas apertam. A minha é branca, muito branca e sem quadrados como o bibe, Foi a minha avó, quem a fez a bata. Ela sabe costurar e fazer muitas outras coisas, mas não sabe ler. O avô ensinou-a a desenhar o nome para não ter que pôr uma cruz em vez do nome, e eu vou ensinar-lhe a escrever o resto. É por isso que ela quer muito que eu vá à escola. Também tenho outra avó, que vive longe com o outro avô. Mandou-me um casaquinho branco para pôr por cima da bata quando estiver frio. Foi ela que o fez, com um novelo de lã, porque sabe tricotar e também sabe ler e escrever. Aprendeu com os professores que iam a casa e depois fez um exame e foi para o colégio. A ela não posso ensinar, mas vou-lhe escrever muitas cartas a contar o que aprendi. Ainda bem que a minha professora é linda!

 

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Ó mãe!

por esquisita, em 03.08.23

 

Ó mãe, posso ir contigo à praça da hortaliça! Ó mãe, deixa-me ser eu a levar a ceira!...agora a minha irmã também quer! Ó mãe, ela está-me a chatear! Ó mãe, eu sei atravessar sozinha, não preciso da mão! Ó mãe, posso pôr uma moeda no ceguinho? Ó mãe, se ele não vê, como é que sabe tocar? Ó mãe, estão a matar as galinhas! A água quente é para as afogar? Ó mãe, as penas cheiram mal! Que nojo! Ó mãe, deixa-me fazer brincos de cereja! Posso provar o triângulo da melancia! Ó mãe, porque é que as bananas estão penduradas? Ó mãe, posso ficar com o caracol das couves? Ó mãe, pede à senhora Matilde para ser eu a dar à manivela do caldo verde! Ó mãe, eu não quero entrar no talho! Tenho medo! Ó mãe, podemos levar regueifa? Ó mãe, porque é que as moedas do Santo António estão verdes! Para que é que são estas velas? Ó mãe, a minha irmã está a enfiar as mãos no alguidar das azeitonas!... eu também, mas foi só um bocadinho! Ó mãe, leva tremoços e pevides! Ó mãe, pode ser antes camarinhas? Ó mãe, quero fazer xixi! Ó mãe, aquela senhora vive sempre na casa de banho? Ó mãe, posso ajudar a levar os cravos? Ó mãe, doem-me as pernas, vamos para casa! Ó mãe, podemos ir ao café, comer um bolo? Ó mãe, o que é Tangará? Ó mãe, o Celestino deu-me um rebuçado e eu disse, obrigada! Ó mãe, queres que vá chamar o miúdo do jornal? Ó mãe, porque é que ele tem um bolo e um sumo, só para ele, e eu tenho que dividir com a minha irmã? Ó mãe, ele pode vir para nossa casa? Ó mãe, Ó mãe, Ó mãe, Ó mãe dá-me auga!

Dizia que eu ainda havia de lhe gastar o nome, e se não gastei, pelo menos esforcei-me bastante.

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Direito

por esquisita, em 25.04.23

 

Por ser sempre tão atento aos meus desejos e condescendente para com as minhas vontades – talvez até um pouco permissivo nos caprichos – era difícil compreender aquela recusa definitiva e incontestável.
Não se abre!!!
Eu argumentava com razões que me pareciam evidentes. Fazia parte do pedido de notícias, das saudades e dos beijinhos, nas costas do postal. A possível nota de vinte escudos para ajudar à compra dos patins, estaria à minha espera entre as duas folhas da carta perfumada. Se fosse uma daquelas encomendas que o Sr. Fernando trazia no fundo do saco de couro, podia contar com os caramelos embrulhados no papel Kraft, ou quem sabe, com a camisola tricotada. A avó nunca se esquecia de mim.
Protestava a injustiça, pedia justificações.
Não tem o nosso nome no destinatário, não abrimos!
Toda a intimidade é inviolável. A correspondência entre mãe e filha, ainda que inclua a neta, também.
Para não me ver triste, dava-me abraços e beijos, ou cinco escudos para pôr no mialheiro, ou uma sombrinha de chocolate e prometia que íamos os dois aprender a tricotar. Ficávamos à espera que a mãe voltasse na sexta-feira, para revelar o que era dela.
Ensinava-me o respeito, mas sem querer que eu soubesse que repudiava um direito. Talvez, por o considerar de tal forma aberrante, nunca quis que o conhecesse.

 

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Raibas

por esquisita, em 20.04.23

 

Não tenho foto e dá-me muito mau jeito dizer raiVas, desculpem. É assim:

 

Ingredientes

  • 200g de açúcar
  • 150 g de manteiga
  • 5 ovos
  • 500 g de farinha
  • Canela em pó

 

Preparação

  • Lavar as mãos, ajustar o avental com várias dobras na cintura e um nó atrás do pescoço
  • Aquecer o forno, tão pequenino que até parece de brincar, a 180ºC. 
  • Untar vários tabuleiros, o de esmalte preto sarapintado e os de alumínio riscado pela palha de aço, com manteiga. Polvilhar com farinha
  • Misturar bem o açúcar, a manteiga e duas pedrinhas de sal, tirar o anel de borboleta
  • Quebrar os ovos na esquina da banca, um a um e juntar bem, sem deixar escorrer claras pelo armário abaixo
  • Peneirar a farinha e a canela, com calma e sem soprar, e juntar ao resto da mistura 
  • Amassar com a ponta dos dedos para não ficar com a massa toda colada às mãos. Não mexer no cabelo
  • Enrolar tirinhas finas e fazer o concurso da tira mais longa. Não amuar quando as tiras de partem, nem tornar a juntar massa que caiu ao chão
  • Fazer arabescos irregulares, até preencher os tabuleiros. Comer os restos de massa crua.
  • Levar ao forno e esperar cerca de 15 minutos. Ir para o canto da cozinha sempre que se abre o forno
  • Deixar arrefecer, provar e guardar na lata dos biscoitos, junto ao garrafão da ginja
  • Não fazer birra, porque o anel de borboleta desapareceu

 

Fazem-se ao serão, depois da cozinha arrumada. São rijas e doces. Se quiserem tentar, espero que gostem, como eu gosto.



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Nicolau, Nicolau

por esquisita, em 18.04.23

IMG_20211107_153434.jpg

Nicolau, recolhido no claustro, esconde-se no canto. Descobri-lo na sombra faz barulho, prejudica a saúde dos doentes que devem descansar em silêncio, para não serem mais doentes. As crianças saudáveis que correm e gritam de excitação à vista de um pinguim, não devem abandonar o recreio e procurar o Nicolau. Visitá-lo em saúde é transgredir, tanto como sujar a bata branca no adro da escola dos rapazes, em brincadeiras despropositadas que justifiquem a visita.
Como rasgaste os joelhos?
A saltar da estátua do bombeiro!
Embora lhe censurem a forma de tentação infantil, desrespeitar a gravidade do bombeiro desagrada aos crescidos.
Menina feia!
Álcoois e tinturas, compressas e ligaduras tratam feridas, mas a potência máxima do poder curativo, capaz de secar lágrimas e extinguir queixumes, pertence ao Nicolau.
Posso vê-lo?

Se o Senhor Nicolau, tivesse chegado a médico, bem poderia tratar os doentes todos e os joelhos também.

Ir buscar o livro e pousá-lo sobre a mesa, deixar as mãos pousadas a seu lado, impedindo que o dedo guie as letras, é o começo. Afinar a voz para que saia constante e clara em voltinha transparentes de emoção, desagrava as ofensas involuntárias. Desgostar os crescidos que têm que nos amar, assusta.
Ler tudo sem soletrar e terminar com um suspiro e um sorriso, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado e os olhos brilhantes de satisfação.
Linda menina!
Só falta mesmo o remate esmerado da inocente astúcia infantil, em tom doce de questão curiosa.
Como é Nicolau, em latim?
Mas sem falar da caixa. Os crescidos não gostam de explicar a caixa. Falam de voar para o céu e outras coisas sem sentido. Atrapalham-se, por nunca terem descoberto que ao afagar a brancura gordurosa do peito do Nicolau, o fazem agitar asas de Arcanjo, Miguel, poeta e escritor, ou pinguim. Se for doutor, trata joelhos rasgados.
É Nicolaus!
Como se fosse plural. É então, muito bicho igual a todos os bichos que juntou.
Depois, fica tudo perdoado.

 

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Ilha Primeira

por esquisita, em 10.03.23

 

O paizinho, já tocado pela loucura que no futuro o irá tomar por completo, continua a manter o aprumo. Abre a gaveta, escolhe de entre as camisas brancas, as que lhe parecem mais alvas e bem engomadas. Com todo o cuidado, acomoda-as uma a uma, na maleta pousada sobre a cama. Diligente, verifica pregas e alisa rugas, ajeita punhos e compõe colarinhos. Está tudo em ordem. Junta os fechos, afivela as correias, e sai para ir apanhar o navio. Tem assuntos de grande importância a tratar no continente, convém que se apresente à altura das circunstâncias. Mal transpõe a porta do quarto, é assaltado pela dúvida – Terei as camisas em ordem? Pousa de novo a maleta, abre-lhe a tampa e avalia – Esta vai em cima, para não se enrugar! Esta vai em cima, para não se enrugar! Esta vai em cima… Sai ligeiro rumo ao cais, não vá perder o navio.
A mãezinha, recém acostumada ao sobressalto que no futuro lhe vai consumir os dias, mantém o aprumo. Tira o casaco de fazenda do armário, aconchega o lenço ao pescoço, compõe os ganchos no cabelo. Deixa para trás, meia dúzia de camisas brancas sobre a cama. Sai apressada, evitando escorregar nos seixos da rua que leva à praia.
O dia está a acabar, o mar está calmo, os pescadores remendam as redes encostados ao casco dos barcos. Olham o homem parado ao fundo do trapiche, fixo no horizonte. Olham, remendam e comentam – Está outra vez, à espera do navio!
O paizinho volta para casa. Voltam os dois de mão dada. A mãezinha, traz maleta vazia.
Olham, remendam e comentam – Nesta ilha não atraca navio!

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9

por esquisita, em 08.03.23

 

Deixa que chore!
Olha que se estraga!
E eu gelada, tremia.
Vinha a avó, muda e queda,
a acenar com a cabeça,
que sim,
que sabia
não ser imaginação
o frio que eu sentia,
se não te tivesse nos braços.
Muda e queda, dizia
Dá-lhe mimo!
Dá-lhe colo!
Dá-lhe muito, muito, muito!

 

Agora que tenho nove anos de idade, vou servir para casa de uns senhores que quiseram ficar comigo. A minha mãe disse-lhes que já sei fazer muita coisa. Sei pôr a comida ao lume e fazer as camas e lavar a roupa e deixar tudo asseado. Também posso tomar conta dos meninos, como faço com os meus irmãos. Sou eu que a ajudo a governar a casa, desde que o meu pai teve o acidente. Esteve muito tempo entrevado e o patrão teve que pôr outro no lugar dele. Depois, como ficou tolhido de um braço, o patrão já não o quis de volta. Foi ele que falou à minha mãe destes senhores, para onde vou. Acho que ainda são aparentados. Têm uma casa muito bem posta, com coisas boas e finas, e querem ter tudo sempre em ordem. A criada já está a ficar velha e a senhora é doente dos nervos, faz-lhes falta uma rapariga para ajudar. Antes do acidente, vivíamos remediados com o que o meu pai ganhava. Andei na escola até à segunda classe. Aprendi as letras, custa-me a ler, mas as contas faço-as todas de cabeça. A mestra até disse que eu havia de dar para os estudos. Por isso se a senhora me mandar fazer recados, ou ir ao mercado, não me deixo enganar nos trocos. O meu pai recomendou-me, que havia de ser sempre muita séria quando tivesse que apresentar contas aos senhores e que não devia querer nada que não fosse meu, mas que podia aceitar o que me dessem. Disse para só falar quando me perguntassem alguma coisa e para dizer sempre "desculpe", "se faz favor" e "muito obrigada".

 

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