Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Sexta-feira

por esquisita, em 06.11.22

 

Estou certa de que era Domingo. A feira sempre foi ao Domingo, não sei se o último ou o penúltimo do mês, mas sempre no primeiro dia da semana. Há quanto tempo, não sei. Neste século, certamente. Foi escolhido à pressa, sem critério nem vontade, depois de ter revirado a banca em busca não sei de quê. Veio comigo por minha vergonha de não reconhecer os tesouros, no meio de tanta quinquilharia. Sou bruta… Adiante!
A noite passada deitei-me de novo com o Syme. Há quanto tempo! Talvez por conta da névoa, ou quem sabe, seja efeito da fumarada que a salamandra dos vizinhos larga pela chaminé, acordei Sexta-feira — Sem fé suficiente para acreditar na matéria — hoje é Domingo, e não há feira!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Equilibrista

por esquisita, em 17.05.22

 

Ordenar o tempo,
dar nome às coisas, forma aos recortes,
descolar pessoas, alisar as voltas, desembrulhar,
aproveitar retalhos,
adivinhar os laços,
desatar os nós, juntar as pontas,
equilibrar a torre,
equilibrar a torre,
equilibrar a torre...
Deixar cair!
Reerguer, sacudir, remendar…

Sou aprendiz de equilibrista,
a fazer acrobacias no gume da sanidade!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Não sei

por esquisita, em 18.02.22

 

À primeira hora, antes de chegar 

seria fermento, terra a levedar

Desse chão se vai erguer, 

pela vontade de outro dia,

a fome de amanhecer

Que nome lhe posso dar?

Não sei...

 

Tempo que é agora, antes de partir

acende a fogueira de algum existir

Nessa chama, a arder, a alastrar 

como sopro, semente de cinza, 

sem ter um nome,

teima em lavrar

 

Posto está o sol, depois de brilhar

derrete nas águas o sal desse mar

Sopra vento que anoitece,

alisa a onda que embala,

cala a luz e adormece

Se amanhã, à primeira hora,

se pode tornar chamar, 

não sei...



Autoria e outros dados (tags, etc)

Chuva

por esquisita, em 01.12.21

 

Chove uma chuva de já não ser, a molhar sem piedade

Chove um frio de já não estar, a gelar o caminho alagado 

Chove um vento de já não poder, a soprar o que restou

Chove, mas não sou eu

Enquanto for piedade

Enquanto houver caminho

Enquanto restar poder

Chove, mas não sou eu

Porque eu não sei chover 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Insignificante

por esquisita, em 31.07.21

transferir.jpg

Insignificante grão de areia, único e indistinto, absolutamente solto, mas sem ser livre. Rola e voa, mas só o sopro o fará duna, se a água não o levar. Nenhum outro toma o seu lugar porque não há sítio que lhe pertença e todo sítio é seu.

Tantas voltas dará, entre tantos e como todos, até ser pó. Depois do pó, nada, ou vento, ou mar ou tudo o que sempre foi.

Sabe-se mínimo e quer-se mínimo para ser imenso no areal, e só no areal é grande sem nunca ser o areal.

Quem sabe se não foi o grão de areia que gripou o rolamento, que encravou o mecanismo, que fez parar a máquina, que… Que me vai trocar as voltas. É melhor ir ver, antes que me estrague o fim de semana.

Insignificante grão de areia!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Dia de raiva

por esquisita, em 14.07.21

IMG_20210714_134600.jpg

 

Há coisas que não se dizem e muito menos se podem escrever

 

Onde quer que ela esteja…

Onde quer que ela esteja…

Não me repitam: onde quer que ela esteja…

Eu sei onde ela está! Também lá estavam, também viram a terra na minha mão,

Como fui capaz?

Não me digam que foi cedo demais! Não existe tempo justo!

Não me falem de estrelas mais brilhantes, 

Já lá estavam ontem, são as mesmas, brilham indiferentes!

Não me convençam a guardar a vida na memória,

Já vi a vida dispensar a memória, no mais cruel existir sem ser.

Não me confortem o sofrimento com o sofrimento que conhecem...

Quero a dor, é minha! Não quero que nada nem ninguém a diminua!

 

Mas porque não me avisaram do desejo de escavar, de desenterrar, de desfazer o que está feito?

 

Porque não me explicaram a fúria de rasgar o céu e explodir constelações? 

 

Porque não me disseram da raiva de ter ficado para trás, num abandono injusto?

 

Sempre soube que a ousadia seria esmagada pela impotência, ainda assim, ousei. Não ouvi...

Agora ouço, claramente:

Nada podes!

 

Disse e escrevi

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Primeiro dia

por esquisita, em 30.04.21

 

"... hoje é o último dia…" foi a primeira frase que ouvi no rádio, enquanto tentava acordar...

Já perdi a conta ao número de vezes que anunciei a desgraça. Nuns dias com mais calma, com detalhe e recomendações adicionais, noutros poupando nas palavras, resumindo o essencial, ganho coragem e faço a declaração.

Se a pergunta é feita hoje é hoje que tudo começa.

E amanhã pode ser:

"O que é isto tudo, que para aí anda?"

ou, em qualquer outro dia, qualquer outra pergunta, repetida na mesma inquietação sincera da primeira vez, aguardando por resposta. Se a resposta chegar hoje é hoje que tudo começa.

Eu hesito por uns segundos, avalio a força que tenho, peso os estragos que as minhas palavras podem causar e torno a ser o mensageiro da desgraça. 

A surpresa genuinamente repetida:

"O que nos havia de acontecer!"

É hoje o primeiro dia!

"Tudo o que muda amanhã"  leio na primeira página do jornal

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D