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Reunião

por esquisita, em 14.03.23

 


Em princípio, a escolha do local parece ser perfeita, por permitir que fique tudo em casa, evitando que se vão armar escândalos em sítios que não nos são familiares. A falta de conforto do hall de entrada, soluciona-se com uns quantos banquinhos de campanha. Os mais prevenidos trazem-os em excesso, a contar com os atletas que mais cedo ou mais tarde se vão abaixo das pernas. Computador e impressora, papéis e papeladas, estão a cargo do administrador e do secretário. De forma expedita montam a banca num abrir e fechar de olhos.
Pelas sete da tarde estão resolvidas as questões logísticas, e a ideia do acerto na escolha do local é reforçada por haver o indispensável quórum. Eventuais Pilatos, ou ficam recolhidos em casa a lavar as mãos, ou trancados na rua, impedidos de as lavar. Pelo hall, não passa ninguém, sem tomar parte na solução desta bronca.
Presentes à assembleia estão os que por força das circunstâncias não podem falhar, mais o empreiteiro e o técnico dos elevadores, chamados para prestar esclarecimentos adicionais, e para compor o ramalhete, uma advogada.
Se ocorrem noutras paragens, reuniões mais civilizadas, não é do conhecimento de quem escreve. Esta em particular e dadas as circunstâncias, tem à partida tudo para exceder qualquer boa peixeirada. A saber: dívida de pai incógnito, que ao chegar à maioridade dos milhares graúdos, exige a todos o reconhecimento da paternidade.
Tudo começa dentro de uma certa cordialidade, que sem demora se revela insuficiente para manter a paz podre. Às oito, a caldeira começa a ferver. Insinuações, atropelos, intervenções a despropósito, dedos na ferida, justificações esfarrapadas, insultos velados e explícitos, tudo a centrifugar a alta rotação.
Reuniões de condomínio são com certeza, matéria para estudo aprofundado do comportamento humano. Fica para quem o souber fazer.
Resumindo o que é longo e não entrando em detalhes escabrosos, já tem a reunião umas duas horas bem contadas, quando o do 3º Esq se começa a picar com o dos elevadores. A propósito não se sabe bem de quê, subiu-lhe a raiva à cabeça a ponto de lhe ficarem os olhos raiados de sangue e as veias a latejar nas têmporas. Gesticula, esbraveja, rodopia sobre os calcanhares como uma bicha de rabear e sai desencabrestado, escada a cima – EU NÃO LHE ADMITO! Ouviu!? EU NÃO LHE ADMITO!
Por esta altura, a locomotiva em que segue a assembleia, tem um tal andamento, que fanicos e chiliques individuais, não conseguem deter. Se quer sair, pois que saia, e siga o circo.
Uma hora depois, já o técnico dos elevadores foi dispensado de prestar esclarecimentos, quando retorna o do 3º Esq, em perfeita tranquilidade de espírito e compostura de modos. Trocam-se olhares inquisitivos, espantados pelo milagre da recuperação do homem que ainda há pouco estava à beira de uma trombose. Antes assim.
À quinta hora, a coisa começa a perder o gás. O cansaço faz-se notar, muito embora vá surgindo um ou outro reacendimento, mas já sem o ímpeto inicial. Curiosamente, o do 3⁰ Esq, torna-se um dos participantes mais comedido nas palavras e moderado nos repentes. Fez-lhe bem desabafar, ficou mais aliviado, talvez.
Por volta da uma da manhã a saturação obriga ao entendimento, que na prática equivale a entendimento nenhum.
Bem vistas as coisas, o hall de entrada não é a escolha mais correta. Melhor será tornar a reunir, no conforto da sala de audiências de um tribunal.
Enquanto se aguarda que o secretário ultime a ata, saem à rua os condóminos ["condónimos", não consigo resistir, desculpem] absolutamente exaustos. Para aliviar a tensão, esfumam-se ressentimentos e amuos, ao sabor de um cigarrinho. Trocam-se desabafos e queixumes: Seis horas extenuantes, após um dia de trabalho, tantos nervos, tanta emoção e tudo isto sem sequer se ter jantado…
– Sem ter jantado!? – diz o do 3ºEsq. – Mas o que é que vocês pensam que eu fui fazer lá em cima?

Seis horas de reunião, seis horas!

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9 comentários

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João-Afonso Machado a 14.03.2023

Um dos grandes suplícios da Humanidade! E a prova que não nascemos para viver em gaiolas.
Às do meu prédio nunca vou. Já fui a verdadeiras maratonas nos prédios dos outros. Era o advogado... Que se esfalfassem, o taximetro só parava no fim.
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esquisita a 14.03.2023

Acredito que a perspetiva do advogado seja diferente
Eu participo sempre nas reuniões, mas já perdi a conta às vezes em que disse para mim mesma "esta é a última!"
Uma boa noite
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cheia a 14.03.2023

Só prova que os condóminos gostam muito de conviver uns com os outros, senão não fariam tudo para estarem juntos, tantas horas, depois de um dia de trabalho.

Boa noite
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esquisita a 14.03.2023

Serões de salutar confraternização
Agradeço
Boa noite
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Adorei ler o post Esquisita! Como sempre.
Uma barrigada de riso, até uma certa descompostura nas penas
Muito bom!(Não seria de incluir a etiqueta de "humor"?)
Boa noite, e obrigada pela excelente partilha!🐦
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esquisita a 15.03.2023

Seria cómico se não fosse trágico
Ou será ao contrário?
Não percebo nada de incluir etiquetas, sou uma desgraça a gerir blogs, mas agradeço a sugestão e a simpatia
Uma boa noite, Mafalda!
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Maria Pinto a 18.03.2023

"Seria cómico se não fosse trágico
Ou será ao contrário? "
Desculpe, mas adorei!
Faz-me lembrar de quando ia ás reuniões de condomínio...precisamente pelo que descreveu, deixei de ir...
Mas fez-me rir muito!
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esquisita a 18.03.2023

Olá Maria! Este foi um caso extremo e era previsível que só se resolvesse em tribunal, mas não fique a pensar que aqui no prédio somos uns trogloditas...
ou se calhar até somos
Bom fim de semana

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