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Tocam sinais.
Estamos em cidade nova, crescida em terra antiga, sítio onde a morte de gente ainda merece que os sinos dobrem, mesmo que, por estes dias, poucos lhes compreendam o falar. Três badaladas solenes, espaçadas e fora de horas, dizem ser homem a criatura que entregou a alma.
Portas adentro, só sabe o que lá se passa quem aí mora. Talvez em primeiro se tenha ido acender a lamparina que alumia a Senhora, porventura até se pode ter murmurado uma qualquer reza pelo defunto, seja ele quem for. O certo é que não se pode uma pessoa deixar ficar no desconhecimento, nem continuar a enviar preces ao céu, sem saber por intenção de quem.
Abre-se a janela.
O bom de viver num beco, é ter vizinhança a quem perguntar ou pedir “ Ó meu menino, vai-me ali fazer um recado!”, mas, por má sorte, lá fora não anda ninguém. Nem mulheres a estender roupa, nem miúdos a jogar à bola. Só lá ao fundo, encostado à esquina com a travessa do arco, um rapazote já graúdo, todo torto das costas e, ao que parece, um pouco mouco, ou mesmo tanto que é preciso berrar-lhe três ou quatro vezes “Ó rapaz, tu estás-me a ouvir!”. Meio assarapantado, tira qualquer coisa dos ouvidos, e grita de volta “Então, onde é o fogo!?”, que é uma maneira muito sem modos de perguntar para quê tanto alarido. Não se faz caso da desconsideração, “Vai-me lá cima, à capela, a saber quem se finou, se fazes favor!”, meio ordem, meio pedido, a ver se o rapaz traz notícias do sucedido.
Mas ele, nada.
Torcido como um ponto de interrogação, torna a pregar os olhos no telemóvel. “Anda, avia-te que na volta tens à tua espera um pão com doce de tomate!”, isto era isco para lhe dar ânimo, desatar a correr pela ladeira acima e voltar, num instantinho, pela gulodice. Mas do moço só veio uma valente gargalhada. Já ninguém leva os miúdos à certa, com papas e bolos. “MALCRIADO!” e já prestes a bater com as portadas, aproxima-se o cachopo do peitoril, sem nunca erguer a cabeça, nem dar sossego aos polegares no ecrã “ Tenha lá calma, estou a consultar a página da paróquia!”
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