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Para que a cidade passasse adiante, mandaram o túnel furar por baixo da linha, com a recomendação de se alinhar pela fábrica assim que chegasse ao outro lado. Cavou, foi ao fundo e quando voltou à tona encontrou uma rua de esguelha. Conforme o traçado, demoliu o casario que lhe fazia estorvo ao avanço e, já a pensar no que viria a seguir, arredou as pontas da rua para longe da estrada. A sua parte estava feita.
Depois de separada, a rua passou a existir numa direção incerta que desatina qualquer carteiro, porque o nome que usava enquanto inteira foi escolhido para também designar o empreendimento que cresceu ao seu redor. Não houve ressentimentos, a partilha do nome acabou até por lhe ser favorável, uma vez que a nova vizinhança lhe achou graça e fez valorizar o que sobrou. Diferente sorte teve a fábrica. Critérios mais exigentes, vieram morar para os prédios das redondezas e consideram intolerável a convivência com a indústria. A tal que determinou o caminho do túnel, não teve outro remédio, fez as malas e cedeu os seus terrenos a novos edifícios.
Apesar de ter cada metade para sua banda, a rua ficou e é só uma. Para melhor orientação, onde se estiver diz-se sempre estar do lado de cá. Nunca ninguém fica perdido, a não ser o carteiro a quem em certos dias se embaralham os números com os blocos, a rua com a urbanização e acaba por largar a correspondência onde ela não condiz. Como rareiam as cartas que não são contas, se uma dessas nos cai na caixa por engano, dá pena que não chegue a quem procura.A extraviada pretende corrigir a rota e acertar na direção.
Lá para os lados de uma correnteza de casas que, em tempos passados, foram todas iguais, existe uma mais teimosa que mantém a simplicidade da janela, porta, janela, telhado de duas águas e chaminé a fumegar. É por aí que mora um rapazito com idade para já ter feito o exame da 4ª classe há muitos e muitos anos, deve saber ler e escrever e talvez tenha vícios antigos como o da correspondência. Pode muito bem ser ele quem a espera. É só uma hipótese, mas seja como for, esta carta escolheu-o como destino e decidiu que vai cruzar o túnel para se entregar.
Alcançar o outro lado da mesma rua, obriga a dar uma volta para lá do sol posto, porque cruzar o túnel a eito é desafiar-lhe o fluxo que já de si é contrário em dois sentidos. Entretanto põe-se um temporal danado, a carta vai chegar toda encharcada, mas mantém a intenção.
Nos vagares do seu sossego, está o rapaz entretido a construir uma torre sobre a mesa da cozinha. Não parece aguardar por resposta que lhe faça falta. Se antes de lhe bater à porta, a carta tivesse espreitado pela janela, ia encontrá-lo a equilibrar mais um copo e logo saberia dos cuidados a ter quando se apresentasse. A construção, que cresce em direção ao tecto como se fosse uma daquelas cascatas em que os noivos vertem espumante para depois brindar ao amor com os seus convidados, é uma coisa linda de se ver. Mesmo muito linda, mas frágil. Não tem a delicadeza das taças de cristal, ainda assim a aparição repentina de uma carta vinda não se sabe de onde, faz abanar fortemente o vidro vulgar de que é feita.
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