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O dia

por esquisita, em 23.01.24

 

O dia em que eu nasci, moura e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o sol padeça.
luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova
o ar, a mãe ao próprio filho não conheça.
as pessoas pasmadas de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!

           Luís Vaz de Camões 

 

 

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Viagem

por esquisita, em 19.01.24

 

Era Feliz o Mortal de ontem à noite.
Ainda antes de apagar a luz me pareceram
felizes todos os passageiros da carruagem
e até mesmo a Mortal esposa…

 

Os pneumáticos tornam a bufar sem efeito visível e o motorista, intransigente no cumprimento dos seus deveres profissionais, rosna entre dentes que dali não sai enquanto as portas não fecharem.
Decidida a entrar neste autocarro, já com um pé no patamar, Aldina tenta contrariar a má sorte de pela segunda vez ficar em terra, abrindo caminho com o ombro. A sua figura franzina está aumentada por um apêndice volumoso. Logo hoje, dia de greve em que tem que apanhar três autocarros para voltar a casa, se lembrou a doutora das quartas-feiras de lhe deixar junto com o pagamento, um saquinho bem anafado. São coisas em desuso, oferecidas por gosto e abundância, e acolhidas com agrado. Agradece de coração o bom coração de quem dá, mas é um facto que nestas circunstâncias o saco se torna um estorvo.
Aldina pede auxílio aos que já se resignaram a esperar pela próxima viagem, para que empurrem e comprimam o aglomerado de gente que entope a entrada, de forma a que também ela e o seu saco caibam nesta carrada. Quem fica ajuda – não sem interesse de ver a fila emagrecer – e as portas gemem e chiam, tornam a tremer, giram no eixo e acabam por rodar sobre si mesmas para se fechar.
Ainda falta um degrau, mas Aldina já está dentro, vai seguir viagem, e é isso o que lhe importa
O autocarro retorna lento ao fluxo do trânsito, num pára-arranca intermitente, com o motorista a reclamar a prioridade que tem, até que alcance a faixa que lhe é destinada, para então ganhar velocidade. Amontoados ao acaso, os passageiros formam temporariamente uma espécie de mixórdia de corpos, em que ninguém sabe ao certo onde cada um começa ou acaba. Sem ter oportunidade de validar a passagem, Aldina segue adiante no corredor, arrastada pela avalanche humana que procura acomodar-se da melhor forma.
A cada paragem refaz-se a lotação, um ou outro lugar sentado troca de dono – outros ouvidos tamponados por auriculares, outros olhos a rolar nos ecrãs, outros rostos revelando os mais diversos estados de ânimo – mas sem que se altere favoravelmente o saldo entre os que saem e os que entram.
Por fim, Aldina sente os pés tocarem o chão, encontrou o seu canto não muito longe da porta da saída. Encaixou-se entre os lugares sentados frente a frente no último troço da viatura. Vai de pé e não tem onde se agarrar, nem mãos livres para o fazer. Mulher precavida, tem sempre uma mão de guarda à mala que traça entre o ombro e a anca, a outra está hoje destinada ao precioso saco. Tenta manter o equilíbrio e só a barreira de gente que lhe invade o espaço íntimo, lhe dá suporte para se manter na vertical.
Repetidos atrasos na entrada de passageiros fazem com que o condutor inicie uma competição com os semáforos para recuperar o tempo perdido. Como na maioria dos jogos, nem sempre se ganha, nem sempre se perde, o que neste caso, corresponde a consecutivas acelerações e travagens. Assim, pouco antes do término da viagem, um cruzamento traçado a régua e esquadro e um sinal amarelo, levam o autocarro a uma manobra brusca e inesperada que faz Aldina perder o equilíbrio. De súbito vê-se estendida de costas, descomposta e desorientada, sobre joelhos estranhos. O aperto que até este momento suportou com firmeza, rebenta numa só lágrima, filha única de humilhação, sem dar espaço a outras emoções, porque o autocarro chegou ao destino. Tenta recompor-se, pede desculpa, ergue o corpo. Na mão tem um par de óculos que agarrou no desespero da queda e que devolve ao legítimo proprietário. É então que dá pela falta do saco. Dá-se o direito de aguardar que passe a confusão da saída para o procurar. Talvez alguém o tenha levado, talvez seja agora só folhas soltas e livros pisados, pelo chão.

 

… se não por via das atribuladas núpcias,
só pelo caso raro de viajar noutro comboio,
pode dizer-se feliz.

 

 

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Bicho guitcho

por esquisita, em 07.01.24

 

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Grosso modo, acredito na inocência dos
cordeiros.
Porque me ensinaram, acredito ser todo manso o meu rebanho.
E persisto em confiança, quando tresmalhado um ou outro se dissimula                                                                          em branca casa, sem se deixar enrolar no jornal.
Por escolha, na dúvida, espero e creio.
Fica fora da caixa. Fica, para lembrar.
Só não sei se ri para mim, ou se ri da minha fé.

 

 

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Nas últimas

por esquisita, em 27.12.23

 

Tenho fraco sentido de oportunidade e insuficiência de vocação para conselhos avisados. Se não digo, é porque estou calada. Se falo, não digo nada. Ninguém perguntou, mas cá vai:

Sei, de fonte segura, que a mulher do coveiro vai à feira vender sapatos de defunto a quem os quiser comprar.

Sabemos todos que, por muito que nos cresça o rei na barriga, não fomos tidos nem achados quando se estabeleceu a ordem de nascer, crescer e morrer. Contra o que está determinado, nada podemos, e ainda assim, no meio tempo, acreditamos que do fruto que cai da árvore, pode nascer uma árvore melhor. Mas voltemos ao enterro.

Se, a meio do serviço, virem o coveiro pousar a pá para endireitar as costas e limpar o suor da testa, saibam que esse é o momento de lhe pagar.

O ano está com os pés pra cova, e já lá vem outro, a estrear, novinho em folha. Façam festa, comemorem, mas tenham atenção aos sapatos, quando se forem enfarpelar!

 

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Coisas

por esquisita, em 15.12.23

 

Coisa triste, primeiro Natal de orfandade
Coisa feia, ir cortar pinheiro à mata
para o fazer coroar com estrela de cartão

Por sorte, a fortuna antiga entope a pia
Fica a cozinha alagada, como manda a tradição

Vem o pastor, mago da chave inglesa
e as suas ovelhas com pezinhos de lã
Vem a lavadeira, de mangas arregaçadas
traz rodo e panos do chão
Secam as águas

Toca a banda uma marcha desafinada
ainda mais azul
Coisa estranha, que não se suspenda o Natal por falta
Coisa boa, o que ficou

 

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Recortes

por esquisita, em 07.12.23

 

Desconfio sempre da autenticidade das tabernas que se intitulam como tal. Taberneiro que é taberneiro, faz orelhas moucas ao dos Cornos ou ao Porcalhão que lhe dá fama, e batiza o estabelecimento com nome que o dignifique, como por exemplo Adega Típica ou Petisqueira. Sim, eu sei que ser autêntico está em alta, e é feio desconfiar da qualidade intrínseca de quem se proclama genuíno.

O mais provável é estar a tornar-me jarreta, mas, alguma vez, viria o Manel da Badalhoca receber-me à porta, para me pôr a par do Conceito de Taberna, que tem para me oferecer!?

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Palavras que não são minhas. O seu a seu dono:
Raul Brandão, Os Pobres
Hans Christian Andersen, A Rainha da Neve
José Cardoso Pires, O Delfim
Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos de Cólera
El Mandarin, Pudim Flan

 

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Imaginação (fértil)

por esquisita, em 28.11.23

 

Um dia hei-de nascer mãe, de madrugada. Imagino Ontem não era, Hoje sou, mas quando? Exatamente quando? E continuo a imaginar, de preferência domingo, dia santo de guarda, conforme o preceito, dispensando trabalhos longos ou pesados. Ainda que a crendice pendure no céu minguante demorado, terei pressa. A ideia faz-me recuar dez luas. Será aí? Torno a avançar, a luz não tarda, e já não é pressa, é urgência de amanhecer. Quando for, há-de ser já e sem demora, não me venham, nessa hora, recomendar calma por não ser assim que acontece. Para mais, sendo viagem inaugural, é esperado que me andem as entranhas em afanosas bolandas. Não quero contrariar ninguém, mas prevejo ficar fora do coro, sem tenebroso relato da tormenta, nem crónica que entre as demais me enalteça, para atemorizar as vindouras. Força, conto necessitar mais que muita, mas não mais do que a possível. Ouvirei então o meu nome alterado e responderei por ele duvidando, Sou? Depois, se acharem o caso estranho, que me ponham debaixo de olho, em retiro vigiado, junto de outra qualquer ocorrência excecional. Talvez alguém que seja já, alguém que saiba ser mas não queira mais e por isso recuse colo, deixe chorar. O que fará gente estranha ao meu sonho, senão for para me acordar? Sou!

 

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Conversa fiada

por esquisita, em 17.11.23

 

Como é que uma velha centenária, estafada pelos anos e gasta por gerações, pode ter tantos pretendentes? Olha para a quantidade de cartões e bilhetinhos que te deixam ficar por debaixo da porta! Não faças caso deste azedume logo à entrada, que desconfio não ser mais do que ciúme. Sem rodeios Tenho interesse! Sei o que vales e estou disposto a pagar!  E eu tenho medo de te deixar cair … Sabem lá, eles, alguma coisa! Tudo ao lixo e adiante, que não foi a isto que vim! Deixa lá ver de te queixas… Dizes, então, que o estuque do tecto está a descascar!? São sintomas da idade, tem paciência! Onde é que é mesmo? Na sala? Não digas mais, o aparador está polvilhado pela caliça, que nem rabinho de bebé coberto por pó de talco. Deixa estar, eu limpo… gosto do toque macio desta madeira encerada, e ainda gosto mais do cheiro que conserva ao fim destes anos todos. Sabes o que dizem? Pinho manso cheira a pinhão, não importa o tempo que passa. Não é pinho, esta madeira. Não sei, nem tenho mais ninguém a quem perguntar, que fruto deixou por dar a árvore, para se fazer armário. O quê!? Não me venhas com poesias, aroma a dia de festa, brindes à saúde, risos e abraços, são perfume acrescentado pela memória, não há madeira que… Espera! Não te quero assustar, mas o caso é capaz de ser mais grave! Parece água… pinga, pinga, pinga… só me faltava mais esta! Uma infiltração! Pelas minhas contas, este tecto é o avesso do terraço, deixa-me orientar: cinco passos do fogão à porta da sala, mais dois em frente, quatro à esquerda. Vou lá cima ver o que se passa. Escadas que descem até ao pátio das avencas, escadas que sobem até ao patamar dos cactos…Mas o que é isto!? A viela está toda suja, outra vez! Já percebi, as andorinhas ainda não foram embora! É Novembro, talvez se deixem ficar para o Natal… talvez façam como as cegonhas, vão ficando, vão ficando, e… Não, não me estou a distrair com outros assuntos! São degraus e mais degraus, lá está o galo virado a Norte, em cima da chaminé. Ora, se aqui é a chaminé, lá embaixo deve ser o fogão, agora é só ir em frente, vira para um lado, torna a virar, pareço uma abuíta. Abuíta, deve ser ave doméstica que não tem poiso no dicionário, hei-de investigar… Achei! É por aqui que entra a chuva, o mais certo é teres a placa rachada! Está-te a rir!? Pronto, tens uma fissura na laje, está melhor assim!? Vou buscar ajuda, não te aflijas, eu volto! Enquanto puder, eu volto! Outra vez escada abaixo, para depois subir e tornar a descer, quem sonhar contigo, deve ter os desejos muito… Olha, mais um cartão! Este traz foto colorida, meio corpo em semi perfil. O rapaz é jeitoso, sorriso insinuante, braços cruzados e o contacto: Ligue-me!  Não será caso a considerar!? Calma! Estou na reinação! Só me dás trabalho mulher, mas sossega que estou só na reinação!

 

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Visão turva e desfocada

por esquisita, em 01.11.23

 

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Risca o fósforo
acende a vela
a vista e a vida
turva
desfocada
Luz
ou a falta dela

 

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Viram?

por esquisita, em 20.10.23

 

Assumi comigo mesma, o compromisso de me obrigar a escrever até aprender a gostar. Mais, contrario a minha natureza, expondo o que escrevo…  era aqui que entrava o discurso do empenho e da perseverança... tenho vontade, não me apetece...

Vejam agora o calibre da minha manha: 

Parabéns, Brás!

 

"E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior transição deste livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi o meu grão pecado de juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro de 1805, em que nasci. Viram?"

Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis

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