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por esquisita, em 08.03.23

 

Deixa que chore!
Olha que se estraga!
E eu gelada, tremia.
Vinha a avó, muda e queda,
a acenar com a cabeça,
que sim,
que sabia
não ser imaginação
o frio que eu sentia,
se não te tivesse nos braços.
Muda e queda, dizia
Dá-lhe mimo!
Dá-lhe colo!
Dá-lhe muito, muito, muito!

 

Agora que tenho nove anos de idade, vou servir para casa de uns senhores que quiseram ficar comigo. A minha mãe disse-lhes que já sei fazer muita coisa. Sei pôr a comida ao lume e fazer as camas e lavar a roupa e deixar tudo asseado. Também posso tomar conta dos meninos, como faço com os meus irmãos. Sou eu que a ajudo a governar a casa, desde que o meu pai teve o acidente. Esteve muito tempo entrevado e o patrão teve que pôr outro no lugar dele. Depois, como ficou tolhido de um braço, o patrão já não o quis de volta. Foi ele que falou à minha mãe destes senhores, para onde vou. Acho que ainda são aparentados. Têm uma casa muito bem posta, com coisas boas e finas, e querem ter tudo sempre em ordem. A criada já está a ficar velha e a senhora é doente dos nervos, faz-lhes falta uma rapariga para ajudar. Antes do acidente, vivíamos remediados com o que o meu pai ganhava. Andei na escola até à segunda classe. Aprendi as letras, custa-me a ler, mas as contas faço-as todas de cabeça. A mestra até disse que eu havia de dar para os estudos. Por isso se a senhora me mandar fazer recados, ou ir ao mercado, não me deixo enganar nos trocos. O meu pai recomendou-me, que havia de ser sempre muita séria quando tivesse que apresentar contas aos senhores e que não devia querer nada que não fosse meu, mas que podia aceitar o que me dessem. Disse para só falar quando me perguntassem alguma coisa e para dizer sempre "desculpe", "se faz favor" e "muito obrigada".

 

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9 comentários

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cheia a 08.03.2023

A história de tantas Meninas!
Excelente partilha.
Boa tarde
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esquisita a 08.03.2023

Agradeço
Continuação de um bom dia (com chuva, que também faz falta)
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imsilva a 08.03.2023

Creio que descreveste a vida da minha mãe. Abençoadas crianças, que não o poderam ser!
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esquisita a 08.03.2023

Temos, então, essa memória comum, sem nunca nos termos cruzado. Embora a minha seja mais remota, doi-me.
Agradeço a leitura e desejo uma boa noite
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Marco a 08.03.2023

Essa foi/é a história de muitas meninas , não sei se é tua ou apenas memórias ...

A minha mãe conta-me que o meu avô e os irmãos, ainda garotos iam servir, para o campo guardar gado. Em troco de refeições, apenas isso... por vezes ainda longe de casa.

Um feliz dia e um beijinho.
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esquisita a 08.03.2023

As histórias que nos precedem, também são parte da nossa história, mesmo que não as tenhamos vivido.
Agradeço e espero que o teu dia também tenha sido feliz, e amanhã também, e depois de amanhã também e ...
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As meninas que cresciam sem infância, mas também os meninos, com 12 anos e menos metiam-se à estrada, desde as aldeias do interior e vinham, sozinhos, ou ao cuidado de outros irmãos mais velhos 3 ou 4 anos, e primos, para as cidades trabalhar nas fábricas, aos 16 eram amparo de mãe e "homens" feitos. E as avós como esta, aos 60 e poucos pareciam já muito velhinhas e partiam antes da agora idade da reforma, deixando esta presença silenciosa, de saudades de quem entendia a dor das netas e netos e sabiam que precisavam de conforto, de chorar e receber muito carinho e colo, porque são emoções e necessidades legítimas... Em qualquer idade.
Texto muito bonito e sentido que evoca muitas muitas memórias.
Obrigada Esquisita pela partilha.
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esquisita a 09.03.2023

Olá Cotovia! Esta criança privada de infância, nunca conheceu revolta ou amargura. Generosamente, fez-se degrau seguro, na escada que tive o privilégio de subir. Muito lhe devo, e com amor eterno lhe pago.
Agradeço e desejo uma noite boa!
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É a essas almas que não conhecem outro sentimento senão o da bondade, generosidade e amor, que tudo devo para fazer frente à maldade e amoralidade de outros, saber que o bem existe e experimentá-lo é a única arma para persistir, resistir e enfrentar a violência e egoísmo de muitos. Quem conhece o amor não o esquece. Gratidão sim. Um privilégio. Grata por esta partilha. Muito obrigada Esquisita.
Eu é que agradeço, beijinho noite feliz
Mafalda Carmona 🐦

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