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Reconheço ter ido longe demais.
Por várias vezes amaldiçoei o rato, persegui-o sem descanso, e acabei por fazer queixa dele à higiene e segurança.
Vieram inteirar-se da ocorrência, perguntaram-me se tinha medo, tive de responder que medo não tinha, quiseram saber se era nojo e nem isso fui capaz de afirmar de forma convicta. Quero, muito simplesmente, o rato fora daqui, já e agora!
De todos obtive grande compreensão, muito embora me tenham criticado o hábito de deixar sempre a porta aberta e apontarem para esse facto, que não posso desmentir, como sendo o motivo para se ter instalado a ratice no meu escritório.
Chamaram de imediato os especialistas, mas entretanto já se tinha espalhado a novidade e ao rato começaram a chamar-lhe meu: o meu rato a passar rente aos pés e a desaparecer por detrás do arquivo, o meu rato a aparecer por baixo do armário, onde um dia confundi uma cobra rateira com uma corrente de 2”, o meu rato a não se deixar ver, mas a tamborilar com as patinhas do outro lado da secretária, o meu rato a deixar caganitas em cima do router.
O meu rato, que a bem dizer era só um tramelo que nem para uma sandes chegava, a fazer-me passar os limites da paciência, e a tornar-me autoritária, a fazer exigências absurdas, e a acusar tudo e todos, para além do que é razoável. Enfim, uma semana nisto, e que se fod@ o rato, vamos mas é todos de fim-de-semana.
Na segunda, antes do escritório, faz-se a ronda para ver se está tudo em modo de funcionar. Não estava.
Deixaram a tina do ácido lá fora, a tempestade encheu-a com água e o meu rato boiava lá dentro. Sei que era ele. Mesmo sem pelo no focinho e todo inchado, sei que era ele.
Acabou-se o rato.
Senti-me bastante culpada.
A propósito do fim que as coisas levam…
Quando era próprio nomear animais segundo os rios e guardar para as pessoas os nomes próprios de gente, já se sabia que Pardelhas, não era o mesmo que Tejo, Sado ou Mondego, por não constar no rol dos principais, nem sequer dos afluentes em qualquer das margens, que deviam, por esses tempos, estar prontos na ponta da língua, para apresentar a revista escolar. Contudo, soava a muito bom nome, para muito grande vontade.
Assim se pensava, quando se deu o caso de ser necessário ir buscar o Pardelhas a Setúbal, dizia a memória, mas a verdade manda que seja, a Viana. É claro que ninguém disse que ia buscar um cão e a raridade do facto, só por si, deveria ter dado origem a uma cabazada de questões cheias de curiosidade. Ninguém disse, ninguém prometeu, e de tanto se desejar talvez nunca se tenha sequer chegado a pedir, confiando na adivinhação dos desejos. Se não se perguntou foi para não estragar a surpresa de fazerem surpresa. Para acreditar que fosse, era preciso não perguntar e esperar.
Foi-se buscar o Pardelhas, e na verdade foi ele que trouxe alguém amarelo, descomposto e culpando tintas e graxas, cheiros de coisa nova em folha, por não se ter aguentado ao balanço. Mas onde está ele? Na Gafanha, amanhã levo-te lá!
O Parelhas não era um cão. O cão só veio mais tarde, e chamaram-lhe Nero, que até é nome de gente, ainda que mais próprio que o Tiago da vizinha.
…alguém me veio contar, que está a apodrecer junto a uma das milhentas ilhas que o Chile tem.
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