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Ronca

por esquisita, em 29.04.22

 

Amanhã, hoje não
que é noite e a luz guia
Amanhã que é Agosto
não me levanto,
não saio da cama,
antes que a meia hora
levante e seja dia
Mas quem me vai avisar?
Se a ronca se calou,
a falta que me fazia!
Vou ter de me levantar amanhã
que era Agosto, hoje não
que é noite e luz guia

https://soma-ua.pt/ronca/  

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Enganos...

por esquisita, em 26.04.22

...acontecem a muito boa gente.

O Marques é um dos tipos mais pacíficos e educados desta selva. Gosto dele. Foi dos primeiros a topar que se não mostro os dentes é para evitar que me comam viva. Entendemo-nos.
Claro que educado não significa menino do coro, no que diz respeito à linguagem. Por estes lados o palavrão é uma espécie de conduto que se entremeia a cada duas palavras, para empanturrar a boca. O mais das vezes, de tão mastigado, acaba por não saber a nada, já noutras situações entorna-se o caldo… Não percebo muito bem as regras dessa gramática, por isso não a posso explicar. Sei é que pacífico quer apenas dizer, rastilho um bocadinho mais comprido quando se trata de fazer estourar a bomba.
Bem, toda esta conversa para quê? Para dizer que na sexta-feira o Marques se apresenta pela manhã com o sobrolho deitado a baixo. Ora isto é caso para me fazer adernar o barco. Vira-se tudo para o mesmo lado, a querer saber o que foi, e entretanto ninguém se lembra de remar. Tive que começar o dia a falar grosso, o que é sempre lamentável por me provocar uma certa gastura e deixar o resto do pessoal extremamente aziado. Não gosto.
A sexta feira é também o dia do cozido à portuguesa na Lurdinhas e tanto quanto sei é de lá que vem um grupo bem comido e bem regado depois do almoço. Desta vez o Marques não se juntou ao resto da malta e depois de comer foi-se sentar no muro a apanhar sol. É claro que não é da minha conta, saber sobre as alhadas em que cada um se mete depois de sair daqui, mas a verdade é que vi o homem tão murcho e desanimado que não pude evitar juntar-me a ele para o tentar arrebitar. Nem sempre somos bichos.
Falámos disto e daquilo e mais das desgraças que consomem o mundo, até que a propósito de um cigarro a conversa foi parar ao caso do dia.
Tinha sido precisamente por conta de um cigarro que se tinha metido em sarilhos, disse-me ele, e acrescentou que não gosta de cerveja choca porque só se lhe apaga a fervura se for tirada à pressão e na hora certa. Dito desta maneira, o que é que se pode concluir? Um caso da noite, passado num bar! Mas não, a embrulhada aconteceu no estacionamento, quando ao fim do dia de trabalho, o Marques encontrou uma criatura instalada ao volante do seu carro, a encher-lhe o veículo de fumo. Ficou barado, capaz de largar fogo pelas bentas: A Fumar! O Filho da Pu.., O C…ão de M..da, a Fumar no meu Carro Novo! A bem da verdade, embora não seja um argumento de valor, o carro só é novo nas mãos dele. Todos sabem e comentam a estima que lhe tem, ao ponto de se privar do prazer de fumar um cigarrinho enquanto conduz, para conservar impecável o "carro novo".
Era, de facto, um abuso, ainda assim, pareceu-me que seria mais inquietante encontrar um estranho dentro do automóvel… Cada um sabe de si e o Marques deve estar habituado a este tipo de brincadeiras entre colegas de trabalho.
Entretanto, lá me foi contando que o tipo do cigarro, meio distraído com o telemóvel, nem se dava ao trabalho de responder aos mimos que lhe dirigia. Viu-se obrigado a abrir a porta, decidido a arrancar o gajo dali pra fora nem que fosse a pontapé: Eu já te F…o, Corno do Ca…lho! E foi aí que a coisa aconteceu…
Tenho para mim que nisto de desabafar, o melhor é ouvir calada. Depois de se aliviarem as mágoas, ficam os fígados desopilados, e quando os ares desanuviam, até se chega a dar umas boas gargalhadas. Não foi o caso. Depois da confissão o Marques ficou mais macambúzio, como quem está agoniado por ainda ter alguma coisa entalada na garganta. Há que dar tempo ao homem para se recompor, pensei eu, mas não tive que esperar muito. Pelos vistos, o defumador de carros, depois do estrago feito, meteu-se dentro da viatura e foi à sua vida sem deixar rasto. Como é evidente, desta vez o desfecho não ia dar direito a gargalhadas. Para lhe servir de consolo, abri uma exceção e contei-lhe a desgraceira por que passei quando me levaram o automóvel da frente da porta de casa. É duro, mas uma pessoa tem que se aguentar à bronca e andar para diante. Não resultou. O Marques continuou de rastos e nisto tinha-se acabado a hora do almoço.
Por efeito da proximidade do fim de semana ou graças ao tempero da Lurdinhas, as tardes de sexta feira costumam correr de feição e num instante está finda a jornada. À saída, o Marques desapareceu como um foguete. O resto do pessoal ficou na risota, comentando o caso do gajo que só depois de levar um murro na cara é que lembra que carros novos há muitos e que o dele estava estacionado dois lugares atrás!
Acreditem, enganos acontecem a muito boa gente…

 

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Nada!

por esquisita, em 24.04.22

 

Estava eu tão sossegada…
E o homem todo empertigado
a explicar que aquilo era poema
E eu muito calada a discorrer
que de poesia não percebo
nada,
e que se troco as palavras é por vício
de encontar eco nas coisas erradas
E além disso, mais
nada!
E o doutor muito ilustrado,
profundo conhecedor do assunto
a examinar a estante vazia,
sem perceber que ali não há
nada!
Estava eu tão sossegada…

Ó mãe dá-me água!

20220423_113135.jpg

 

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Heróis

por esquisita, em 22.04.22

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Passo e leio no passeio
paro e penso heróis
não sou nem sei
se fugir é verdadeiro
é o pecado ficar?

 

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Começo

por esquisita, em 19.04.22

 

Nasceu em dia imprevisto, provocando algum alvoroço, mas sem trazer aflição de maior para que a mãe o desse à luz e sem nada que fizesse duvidar que a luz o iria aceitar com a mesma boa vontade com que a família o esperava. Perfeitinho, como dizia a avó, uma riqueza, acrescentava a vizinha que tinha acorrido aos gritos do primeiro folgo.
Passado o reboliço da vinda antecipada, depois de limpo e asseado, enrolado nas mantas, foi entregue à mãe que sem demora tratou de verificar com olhos de ver, o que no seu íntimo há muito conhecia e desejava.
Entretanto foram anunciar ao pai que por sua conta, tinha mundo mais uma alma.
Chegou esbaforido pela pressa de lhe dar as boas vindas, contudo assim que o viu, estacou petrificado e mudo, como se de súbito se deparasse com um prodígio. Foi a mulher que o tirou do estado de suspensão em que ficou, oscilando entre a reverência e a dúvida de ser parte daquele milagre – Nasceu-nos um menino! – disse baixinho, acordando-o do encantamento, ao mesmo tempo que lhe estendia a criança, para que a tomasse nos braços.
Segurou-o a medo, porém logo que o apertou ao peito e lhe sentiu o calor, tranquilizou-se – É o nosso filho! – Sem que as quisesse conter, soltou dos olhos duas lágrimas quentes, grossas e livres. Regressou ao silêncio, mas desta vez para usar a linguagem primordial do entendimento sem palavras, onde é fácil dizer sem falar.
– Sabes o que nos trouxe? – De novo a voz suave da mulher o tirava da quietude – Como posso eu saber!? – Ela demorou a resposta num sorriso brando, até o sentir desperto pela curiosidade – Diz-me! – Só então lhe apontou a pequena mão direita da criança. Em vão ele a tentou abrir, e mais se fechava ao toque, como se fosse uma semente que ainda não estivesse disposta a desvendar a vida. Devolveu a criança aos braços da mulher que sem pressa, tomou delicadamente a pequena mão e a levou aos lábios. Ao toque misterioso do beijo da mãe, desfez-se toda a resistência, e cinco dedinhos frágeis, brotaram em simultâneo como rebentos, revelando o que se guardava no interior. Um gancho ínfimo, curvo como um anzol rematado por pedra de sal. Era essa a prenda que trazia consigo.
Intrigado pela infinidade de reflexos que a luz produzia no diminuto cristal, o homem não resistiu à tentação de o observar mais de perto. Assim que o tocou sentiu que se afundava profundamente sob a pele dos dedos, sem que no entanto lhe provocasse qualquer tipo de dor. Só uma pequena gota de sangue aflorou à superfície. Instintivamente levou-a à boca – É doce…– observou ele – …como as lágrimas são de sal! – completou a mulher.
Nesse instante a cara da criança tornou-se vermelha e enrugada, a testa franzida e os lábios comprimidos pareciam anunciar um iminente choro a plenos pulmões, porém da sua pequena boca apenas se ouviu um gemer triste e contido, como se tivesse nascido conhecendo a tristeza e por algum motivo a quisesse conter. Aquele lamento prolongou-se num queixume incessante que ecoou pela casa e em seguida alastrou por toda a rua.
Durante uma semana foi impossível dormir. Ao sétimo dia, a vizinhança esgotada pela insónia, reuniu-se para pedir encarecidamente aos pais, que dessem nome à criança. Todos se juntaram para o chamar por quantos nomes conheciam, até que aceitou ser Roque e o seu murmúrio cessou.
Era domingo, o dia do começo.

 

 

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Espiral

por esquisita, em 13.04.22

 

Acusar o retângulo pela congruência interna a que está obrigado, não lhe altera a condição.
Encontrar culpado sossega, mas não muda a forma se a vontade é conformar.
Mais incomoda acatar o espelho mágico.
Acreditar que o quadrado emoldurado por número de ouro, possa ser mais que dourado caixilho retangular.
A vitrina é esquisita?
Esquisita é a espiral do sem-fim,
e eu sou!

 

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