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Música

por esquisita, em 29.10.21

 

Vivo em busca do nome das coisas. Da origem ao fim, tudo me preenche com perguntas. Mas não é minha a ideia de estabelecer o fim do universo no limite do que não se pode nomear.

Seria pouco para ser tudo.

Ainda que fosse possível, não quero tudo explicado.

Pouco me importa o nome do mensageiro que espalha a ordem, ou dos músculos que se contraem, para me fazer arrepiar a pele.

Basta-me reconhecer a música, no silêncio do teu sono. 

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Recado

por esquisita, em 27.10.21

 

Não sei, não sei, não sai, não sou!

Não quero, não espero, não estou!

Não posso, não posso, não vou!

Bem...

Se não estiver à janela, à espera de vos ver chegar, é porque já nasceu o dia e tive de trabalhar! 

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Se te perguntarem

por esquisita, em 22.10.21

 

O tom neutro que usou para repetir "elefante", deu a entender que a resposta não correspondia ao esperado. 

Depois de desenrolado o tapete sobre a terra batida, é aí que se concentra o foco de luz e só resta estender o corpo ao mirabolante número. Empurrada pela força bruta, a assistente rola uma, duas, três vezes. As vezes que forem necessárias e suficientes para que não restem dúvidas da desproporção. Depois sossega o reboliço, que à exaustão convém uma certa elegância.

Pára a música, rufam os tambores: O desmedido peso multiplica a sua altura, como uma torre que se ergue pela vontade do braço do domador. Alarga-se o disco de luz para iluminar a prodigiosa dimensão. Lá em baixo aguardam inquietas, as frágeis entranhas da assistente.

Batem os pratos: Tomba o braço do domador, assinalado o local onde se deve reconstruir o edifício na sua forma natural. Entre quatro colunas de pele espessa e dura a assistente sorri.

Acendem as luzes, retoma a música: Aplausos à assistente que arriscou as tripas, aplausos ao domador que lhas poupou, aplausos à criatura que tão virtuosamente imita o elefante.

Acabou  a sessão. O elefante foi devolvido à selva. A assistente também. É lá que vivem os dois. Ou será só um? Já não me recordo...

Mas porque é que não disse golfinho, ou cão, ou mesmo abelha! Custava alguma coisa?

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Nevoeiro

por esquisita, em 18.10.21

 

Este nevoeiro que só me permite ver pela metade...

 

Ninguém me diz quanto tempo esperou para existir ou se nasceu do nada sem que tudo tivesse existido antes.

Se está visto e provado que nada é para sempre, porque há-de o nada ser eterno?

 

… deixa-me a meio caminho da procura.

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Mau humor

por esquisita, em 16.10.21

Nem crítica, nem lamento, só típico mau humor de noite mal dormida, no bairro mais típico da cidade!

 

Dificuldade em entrar em casa por conta do típico estacionamento selvagem que não respeita portas nem passeios.

Casas típicas transformadas em minúsculos estúdios vendidos a preços típicos da típica especulação imobiliária. 

Lojas de produtos típicos, para satisfazer a típica vontade de recordações, que tomam o lugar do comércio que satisfazia as típicas necessidades do quotidiano.

Labirinto de esplanadas a servir especialidades que devem ser típicas de qualquer lado, que não este.

Desconhecidos à descoberta do típico no vai vem de duas noites, a tirarem fotos ao típico estendal da roupa, que não é típica mas é íntima.

Noites de farra na rua que não passam sem a típica bebedeira e correspondente zaragata.

Vizinhos que ainda não tiveram tempo para aprender o típico Bom Dia.

 

Parece que o típico se tornou um castigo!

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Certeza

por esquisita, em 13.10.21

 

Estou sentada ao sol, gosto do sol, mas já se esgotou o tempo. 

"Outro?"

"Não! Eu consigo fumar o mesmo, duas vezes!"

"Tens a certeza?"

Continuo sentada ao sol, mas já voltei para dentro.

Enquanto fumo mais um cigarro, disfarço a minha ausência. Não compreendem silêncio, julgam que é sombra. Se as palavras fossem minhas...

 

"Não tenho certezas

 

Não, não tenho certezas.

Se era esse o canto que vos atraía,

Deixai-me só nesta melancolia

De baixo, aberto e liso descampado

 

Quero viver, quero morrer, e quero

Que ao fim a soma seja um grande zero

Do tamanho da ardósia... E apagado.

 

Mas são desejos da fisiologia...

Vagas aspirações do dia-a-dia

Duma bilha de barro

Que não vale um cigarro

Que se fuma.

Não, não tenho certezas;

Tenho bruma."

 

Miguel Torga, Diário V

 

… certeza, não tenho, mas procuro!

 

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Até quando?

por esquisita, em 12.10.21

Cada um que aqui passa garante ser diferente, imune ao absurdo.

É só uma questão de tempo

Ou se sentem esmagados,

ou deixam de sentir.

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Limite

por esquisita, em 11.10.21

Sei de um pequeno senhor, mal servido de razão mas muito bem aviado de razões, que sossega os seus desarranjos de maneira peculiar.

Não há argumento que o demova nem regra ou lei que o possam tolher, quando se propõe trepar às costas do primeiro incauto que achar a jeito, para fazer dele o pedestal da sua grandeza. Com artes e manhas, nem os precavidos lhe escapam.

Esmera-se em acirrar para depois se escorar na luta que lhe derem. Redobra ganas se for confrontado com a sua pequenez. Não há ocasião que lhe seja desfavorável ou lugar impróprio, mas aprecia particularmente, reunir assembleia que lhe reconheça o feito e lhe aplauda a conquista. O mais das vezes, deixa o público atordoado. Do alto do desinfeliz que lhe serve de palanque, acredita avistar respeito e admiração.

Como no estômago me roem certos ácidos, que fazem soltar lume pelas ventas, evito quanto posso que me apanhe na plateia das suas perversas escaladas. Seria a lenha perfeita para a sua fornalha.

A dar crédito ao que me contam, falhei presença na arena da sua mais decadente atuação. Do caso em concreto só posso assegurar os efeitos mas, pelo historial conhecido, não é difícil dar o relato como válido.

Desta feita, sem anunciar quê nem porquê, o pequeno senhor resolveu elevar a sua rasteira estatura usando o lombo firme  de um homem a quem comprava o trabalho. Julgando-o seguro pela sua condição, aplicou-se a limpar o osso para depois lhe galgar o espinhaço, vértebra a vértebra. Não vendo jeito de o conseguir vergar, empoleirou-se nos seus ombros e, a golpes de picareta, encarniçou o engenho para lhe chegar ao tutano.

Foi tanta e tão cega a sanha, que conseguiu destorcer o cabo que sustinha a sua vítima. Deixou-lhe o tino despernado e alma de aço à vista.

Não restou ao homem entendimento para dar às mãos outra serventia senão a de tenazes. Fechou-as na goela da criatura que tanto se tinha esforçado por subir. Os pés erguidos do chão, até que os seus olhares se nivelassem. Depois, foi como sacudir um boneco de palha prestes a arder em sábado de Aleluia.

Contam que se lhe puseram a mão a tempo de evitar a tragédia, foi só por vontade de salvar um homem inteiro da desgraça inteira. Todos têm as costas marcadas por cicatrizes que pedem desforra...mas ainda assim conseguiram discernir o limite.

Ferve-me a cabeça com perguntas.

Acima de tudo, questiono a minha própria razão.

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Domingo

por esquisita, em 03.10.21

É dia de agradar. Hoje escolhi o polvo. Acontece que o raio do animal, para se deixar amaciar, é cheio de preceitos: cozer com cebola, juntar rolha na cozedura, dar-lhe com um pau, aplicar o rolo da massa, congelar, água a ferver, não juntar água, não juntar sal, picar com palito e, aquele que me parece mais apetecível mas que ainda não tive coragem para tentar, centrifugar na máquina de lavar roupa. 

Não é fácil escolher entre tantos conselhos que garantem, por experiência dos mais variados conselheiros, o sucesso de um prato em que o cozinheiro se esforça, por todos os meios, para ser bem sucedido, mas que não tem a menor  intenção de provar.

O polvo é um daqueles alimentos que faz parte da minha interminável lista de esquisitices alimentares. Não me permitem dizer que não gosto

"Pois se ainda nem provaste! "

Mas eu, que com a idade vou perdendo cada vez mais certezas, agarro-me, com unhas e dentes ao que tenho como certo

"Nunca comi, não gosto! Não gosto, não como!"

"...só para provar, está uma delícia!"

Tal como as crianças pequenas, 

"NÃO!"

Depois dizem-me que não sei o que perco, que sou só pele e osso. Aprendi a amaciar o polvo mas continuo a ser um osso duro de roer. Não importa, sabem que me dá satisfação vê-los comer e hoje é dia de agradar!

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