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Vizinhos

por esquisita, em 29.09.22

 

Esta casa centenária, cada vez mais vazia, já resvés ao abandono, continua a espantar, pela força que a mantém erguida…
Velhos vizinhos, que já nasceram vizinhos de pai e mãe, não usam telefone ou telemóvel. São vizinhos velhos na idade e no costume de pôr pernas ao caminho para se apresentarem de corpo inteiro. Falam-nos de viva voz, olhos nos olhos, no tempo certo.
Arrastam os pés pela calçada irregular, em passos pequeninos de medo, atravessam a rua, batem à porta:
Aqui estou eu, para tomar parte no sucedido!
Vêm confirmar as suspeitas, e acalmar o desassossego que os tomou pela madrugada, ao verem as paredes do quarto tingidas de azul intermitente.
Contam da aflição que sentiram, e contam poder valer no que forem capazes.
Trazem no bolso, um frasco meio de mel, caso o mal seja do peito, mais a recomendação a um parente que trabalha no hospital, sempre disponível para o que for preciso.
Pouco mais podem, do que gestos e palavras, conforto e esperança.
Partem, deixando a promessa de voltar em breve, por melhores notícias. Entretanto, e à cautela, juntam as dores vizinhas às suas preces.
Velhos vizinhos, escoram a casa…

 

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Antes

por esquisita, em 06.08.22

 

Tanto quanto eu,
raparigas,
e eu só rapariga ainda,
não,
tinham já conquistado,
pela força do trabalho,
o nome de mulher,
As Mulheres da Seca!
Tão iguais e tão diferentes
fomos e somos,
mulheres!

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Franquesa

por esquisita, em 02.08.22

 

Ai, como eu gosto desta franqueza que não se inibe de satisfazer a curiosidade!
Dizem que é do povo e não tem maldade…
Ao fim e ao cabo, se a gente tem olhos é para ver!
E a boca foi feita para perguntar, então não é?
Se depois de se medir de alto a baixo e tirar comprimentos e larguras um ror de vezes, ainda sobram dúvidas, há que pôr a coisa em pratos limpos.

Ouça lá, ela é sua mulher, ou é sua empregada?

Eu até já tinha a resposta engatilhada, era só darem-me corda!

Sou escrava! Fui comprada na feira, junto com uma galinha gorda e um raminho de hortelã!

…mas a mim, ninguém perguntou nada e eu nem gosto de canja!

 

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Opinador?

por esquisita, em 26.07.22

 

Opinativos opinantes,
fazedores de opinião pública?
Engolidores de público seguidor de opinião?
Quanto mais ecoam, mais cresce a espiral...
Mas que raio, é um opinador?!
... e o silêncio avança!

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Bolos

por esquisita, em 25.07.22

 

Vamos dizer que bolos, são só lambarices, que abrem buracos nos dentes e fazem bichas nas tripas. Vamos fingir que isso dos bolos é tudo a mesma coisa e que de onde vêm ou quem os faz, pouco importa…

Contorna o balcão, para acompanhar até porta, e mais uma vez, felicidades e cumprimentos à família. Serão entregues. É uma simpatia, este senhor, todo ele cuidados e atenções para satisfazer a freguesia da sua, bem conceituada pastelaria.
Vai a caixa mais o bolo, pelo caminho, equilibrada com mil cuidados e ovos frescos misturados no açúcar branco, na alva farinha fina, manteiga derretida. Tudo na conta, peso e medida, que a perícia do pasteleiro, sabe transformar numa delícia.
Era o primeiro, sem o ser. Da pastelaria, já se provou a qualidade e lá se satisfez a gulodice, muita vez. Para este fim era o primeiro e terá um gosto estranho a coisa estranha, vai enrolar na boca, vai arranhar na garganta, já o pressinto!
Ao chegar a casa, sai o prato do armário, o de sempre, de porcelana com flores pintadas e estende-se a toalha do costume, bordada com flores iguais, e tudo o mais, que se junta em cima da mesa, à volta do bolo, que é o centro.
Tudo é tão igual e tão diferente!
Todos são os mesmos, mas não todos.
Elogios às rosas de açúcar e pérolas prateadas, às amêndoas finamente lascadas e os parabéns ao nome em arabescos de chocolate. Uma beleza!
Já nem os bolos são assim… Nem nunca o bolo assim tinha sido, porque era o primeiro e terá um gosto estranho a coisa estranha, e está na hora de provar que bolos são só lambarices…
Mas que tem o bolo?
Tem tudo, é muito doce, muito bonito! É altura de fingir que isso dos bolos é tudo a mesma coisa… sabe muito bem… só não tem o calor do forno, nem gosto das mãos da minha mãe.
Era o primeiro, e mal o provei, já o sabia, não passa na garganta!

 

 

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Ordens do pequeno senhor Pequeno

por esquisita, em 20.07.22

 

Ligue ao Zé Ninguém, para que venha aqui resolver isto, num instante! O Zé foi de férias, pequeno senhor!...LIGUE!…Diz que apanhou a carreira das 7, e vai a caminho da terra… Ele que chegue aqui, que isto é coisa de pouca monta… Pede desculpa, mas não é possível, já vai longe!...Isto resolve-se em dois tempos, depois vai à vida dele… A esta hora, já vai para lá do sol posto… E então!? Ele que volte agora, que não se vai demorar!...É melhor, ser o pequeno senhor Pequeno a falar com ele… Era o que mais faltava! Ele que venha, ele que venha e depois falamos!...Diz que mesmo que quisesse, não tem como voltar, e que o Engenheiro das Obras Feitas e o Doutor Sabe Tudo estão a par do assunto, podem resolver o problema… Esta agora! O Zé Ninguém a dizer-me como é que EU me hei-de orientar! Ele que venha cá, IMEDIATAMENTE!... Com o devido respeito, pequeno senhor Pequeno, o Zé está a mandá-lo pró... DESLIGUE! DESLIGUE! DESLIGUE! 

Já aqui falei do pequeno senhor Pequeno, de maneira mais amarga, mais próxima do Limite

Hoje a dose foi mais suave!

 

 

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Ainda!

por esquisita, em 16.07.22

 

Comecei a escrever um texto para estabelecer a ligação entre a Pedra de Roseta e esta música, mas a relação pareceu-me tão óbvia, que desisti!

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Ninguém

por esquisita, em 14.07.22

 

Ninguém viu, não houve nada,

Está quieto!

Fica calada!

Nem um só

amigo,

conhecido,

uma qualquer alma penada

capaz de olhos de ver

E sem que se veja coisa alguma,

o que há?

Nada!

Acaso alguém ouviu?

No quintal,

paredes meias,

nem vivizinha, 

nem gente estranha 

Ninguém!

Pois se ouve, 

pois se houve…

Não dei conta!

Arrancadas as telhas

do telhado,

derrubadas as paredes,

não sobram tábuas

ao soalho

O que resta?

Nada!

A terra engole a casa…

Como é Possível!

Um horror!

Vou dizer que foste tu

Vais dizer que a culpa é minha

Vão dizer e vão falar

 Já esperava!

 Eu bem sabia!

Vão lavar as mãos

em palavras,

e encher a boca vazia,

com o que não

viram, nem ouviram 

E agora que é tarde,

não conseguem calar!

 

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Olhar

por esquisita, em 08.07.22

 

Estou a olhar para os dedos dos pés. São dedos de menina. Pequenos e redondinhos, brancos, suavemente rosados ao redor das unhas, como gotas de água pura, em pálidos tons de rosa. Pousados ao fundo da cama, descansam de tanto correr pelo tecto. É um tecto sem idade. Grande e rectangular, branco, ligeiramente cinzento junto aos cantos, como espelho de água parada, em deslavados tons de cinza.
Estou a olhar para os dedos dos pés com os olhos de mulher que correu mundo no tecto do quarto, enquanto menina. Pergunto-lhes, quanto os marcou o isolamento, quanto lhes doeu a caminhada da cura?
Destes dedos dos pés de menina, eu mulher e o branco tecto, sabemos agora o que então sabíamos:
Querem tocar o chão das outras crianças e correr no mundo delas.

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Ai que desgosto!

por esquisita, em 06.07.22

 

Afina a voz da desgraça,
em jeito d' ave de arribação,
no tom arrastado e dorido,
de quem se sente ferido
pelo golpe de mil pássaros,
rasgando-lhe o coração
Vem cantar-me ao ouvido,
tão choroso e sofredor,
o velho fado, já tão batido
da má sorte, triste sina,
Pequeno Desgosto de Amor
Nas voltinhas do lamento,
mudam-se a maré e vento,
e de amar, já se esqueceu
Pelas ruas da amargura
perdeu-se na ordem trocada,
o amor, quer-o pequeno,
mas faz gosto em grande dor,
melhor lhe serve a toada,
Desgosto de Pequeno Amor!

 

 

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