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Nem mais, nem menos!

por esquisita, em 26.05.22

 

Era um bicho com duas cabeças
Na verdade
seriam dois bichos
num só corpo
se o quisessem partilhar
Arranhou
mordeu
feriu
rasgou
Devoraram-se
Mais
não sei
Menos
não posso dizer

 

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Hoje há baile!

por esquisita, em 22.05.22

 

Maio, mês de se arrastarem os móveis para encerar o soalho
Maio, mês de se acenderem os lustres para iluminar a festa
Maio sem medo, mas com respeito e Santa Bárbara nos acuda,
que este é o mês dos
Grandes Bailes Celestes!

 

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Bolas

por esquisita, em 19.05.22

 

Pelo tanto que aí já me aconteceu, tenho uma relação difícil com essa cidade. Da mais inocente alegria, à mais amarga das dores, por lá moram muitas das minhas memórias. Não a evito, também não a procuro.
Ontem, o dia foi pior que péssimo e nem me apetece procurar adjetivos mais acertados para o descrever. Não tenho por hábito, deixar transparecer desgraças. Dizem que é feitio e chamam-lhe… também não estou com vontade de arranjar outro nome para o que uns dizem ser reservado, outros… Na verdade, pouco importa porque há sempre quem consiga ver o suficiente através do meu nevoeiro, para me dizer que estou com o aspecto de quem caiu pelas escadas abaixo.
Foi assim que sem contar, me vi de rastos ao fundo das Monumentais.
As cabeças têm destas coisas, ou melhor dizendo e para não ofender ninguém, a minha cabeça tem esta coisa escusada de fazer transviar o pensamento para cenários alegóricos.
Lá estava eu estendida a olhar para os degraus em que nunca tropecei, até porque a minha escadaria foi outra, e a pensar que não podia estar mais colada ao chão.
Nestas coisas de dramatismo, confesso que gosto de cenários em grande, no entanto como o espetáculo é privado e tenho que me desdobrar entre a assistência e a representação, não deixo que a fita se prolongue por muito tempo. É muito cansativo e pouco proveitoso.
Como espectadora de mim mesma, tenho falta de paciência para a auto-comiseração. Como atriz, sou pouco dada aos papéis de vítima. Não me levo muito a sério e se há coisa que não me atrapalha é rir de mim mesma. Assim sendo, e não sei ser de outra forma, quando me dizem que estou com aspecto de quem caiu pelas escadas abaixo, respondo que só estou à espera que se forme uma virgem, para me caírem em cima as bolas de D. Dinis.
Sou esquisita, eu sei…

 

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Equilibrista

por esquisita, em 17.05.22

 

Ordenar o tempo,
dar nome às coisas, forma aos recortes,
descolar pessoas, alisar as voltas, desembrulhar,
aproveitar retalhos,
adivinhar os laços,
desatar os nós, juntar as pontas,
equilibrar a torre,
equilibrar a torre,
equilibrar a torre...
Deixar cair!
Reerguer, sacudir, remendar…

Sou aprendiz de equilibrista,
a fazer acrobacias no gume da sanidade!

 

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Esqueci-me

por esquisita, em 14.05.22

 

Perguntaram-me se sabia o que eram umas Lois, e eu ia dizer que eram...

...mas depois, memória puxa memória, e esqueci-me de responder...

 

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Entendimento

por esquisita, em 12.05.22

 

O tempo em que se forma o entendimento é o princípio da escolha das coisas que se querem entender...
Sem altura para mais, nivelava o olhar pelo mármore branco. Pupilas dilatadas e olhos salientes, cruzam-se no mesmo plano castigado pelo sal e pela lixívia, onde desemboca a madrugada que se despeja dos cabazes e caixas de madeira. Neste mar sem água, boia ainda um suave ondular de vida que se vai apagar no contraste da azáfama.
Do outro lado, mãos a amanhar o vermelho sangue na guelra, que narizes atentos escolhem e desdenham para melhor regatear ou peso ou o preço, escamam e cortam, escalam a carne firme e tornam a apregoar.
Translúcidos reflexos fazem eco, e por todo lado se ouvem vozes no tom metálico que tem o sabor da maresia. É tomar sentido nas coisas e descobrir, e pelos sentidos o que elas são.
Dez réis de gente é o bastante para compreender a fronteira. O sacudir das escamas, o subtil entreabrir das conchas, o deslizar de tentáculos viscosos, ou o estremeço ligeiro de finas patas e fortes pinças, não são mais que despedida, gelo a derreter.
Depois, a contrariar a quietude do fim, as enguias têm que se perceber de outra maneira – ou então nunca.
Mais tarde se poderá revelar o mistério desfeito da geração espontânea, o enigma da metamorfose ou a épica viagem entre águas salobras e salgadas. É para isso que servem manuais e compêndios, mas quando se aprende o escorregadio serpentear um ser estripado, que se contorce para além da vida…
O entendimento é uma escolha?

 

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Pesadelo

por esquisita, em 06.05.22

 

Se o sabíamos pesadelo,
porque ignorámos que se deitaria na nossa cama?
Fechámos os olhos,
adormecemos nos seus braços,
doce embalo...
Pois se dormimos com ele,
agora é pai dos nossos sonhos!

 

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Ontem

por esquisita, em 02.05.22

 

Mãe,
Nunca foste velha
Tu, que foste Mãe de tantos,
novos e velhos,
nunca o foste
Tu, que não tinhas medo da palavra velhice
por amar a vida completa e inteira,
nunca foste velha…
Podia ter sido ontem
Ontem poderíamos ter celebrado
a maternidade e a velhice
e eu diria que te amo
Mãe,
mais ainda te amaria
velha!
Podias ter-me feito a tua melhor amiga
Podias ter-me contado
que nunca serias velha…
Fizeste de mim o que de todos fizeste:
amados filhos de Vida
Fizeste de mim a tua melhor filha…

 

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Ronca

por esquisita, em 29.04.22

 

Amanhã, hoje não
que é noite e a luz guia
Amanhã que é Agosto
não me levanto,
não saio da cama,
antes que a meia hora
levante e seja dia
Mas quem me vai avisar?
Se a ronca se calou,
a falta que me fazia!
Vou ter de me levantar amanhã
que era Agosto, hoje não
que é noite e luz guia

https://soma-ua.pt/ronca/  

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Enganos...

por esquisita, em 26.04.22

...acontecem a muito boa gente.

O Marques é um dos tipos mais pacíficos e educados desta selva. Gosto dele. Foi dos primeiros a topar que se não mostro os dentes é para evitar que me comam viva. Entendemo-nos.
Claro que educado não significa menino do coro, no que diz respeito à linguagem. Por estes lados o palavrão é uma espécie de conduto que se entremeia a cada duas palavras, para empanturrar a boca. O mais das vezes, de tão mastigado, acaba por não saber a nada, já noutras situações entorna-se o caldo… Não percebo muito bem as regras dessa gramática, por isso não a posso explicar. Sei é que pacífico quer apenas dizer, rastilho um bocadinho mais comprido quando se trata de fazer estourar a bomba.
Bem, toda esta conversa para quê? Para dizer que na sexta-feira o Marques se apresenta pela manhã com o sobrolho deitado a baixo. Ora isto é caso para me fazer adernar o barco. Vira-se tudo para o mesmo lado, a querer saber o que foi, e entretanto ninguém se lembra de remar. Tive que começar o dia a falar grosso, o que é sempre lamentável por me provocar uma certa gastura e deixar o resto do pessoal extremamente aziado. Não gosto.
A sexta feira é também o dia do cozido à portuguesa na Lurdinhas e tanto quanto sei é de lá que vem um grupo bem comido e bem regado depois do almoço. Desta vez o Marques não se juntou ao resto da malta e depois de comer foi-se sentar no muro a apanhar sol. É claro que não é da minha conta, saber sobre as alhadas em que cada um se mete depois de sair daqui, mas a verdade é que vi o homem tão murcho e desanimado que não pude evitar juntar-me a ele para o tentar arrebitar. Nem sempre somos bichos.
Falámos disto e daquilo e mais das desgraças que consomem o mundo, até que a propósito de um cigarro a conversa foi parar ao caso do dia.
Tinha sido precisamente por conta de um cigarro que se tinha metido em sarilhos, disse-me ele, e acrescentou que não gosta de cerveja choca porque só se lhe apaga a fervura se for tirada à pressão e na hora certa. Dito desta maneira, o que é que se pode concluir? Um caso da noite, passado num bar! Mas não, a embrulhada aconteceu no estacionamento, quando ao fim do dia de trabalho, o Marques encontrou uma criatura instalada ao volante do seu carro, a encher-lhe o veículo de fumo. Ficou barado, capaz de largar fogo pelas bentas: A Fumar! O Filho da Pu.., O C…ão de M..da, a Fumar no meu Carro Novo! A bem da verdade, embora não seja um argumento de valor, o carro só é novo nas mãos dele. Todos sabem e comentam a estima que lhe tem, ao ponto de se privar do prazer de fumar um cigarrinho enquanto conduz, para conservar impecável o "carro novo".
Era, de facto, um abuso, ainda assim, pareceu-me que seria mais inquietante encontrar um estranho dentro do automóvel… Cada um sabe de si e o Marques deve estar habituado a este tipo de brincadeiras entre colegas de trabalho.
Entretanto, lá me foi contando que o tipo do cigarro, meio distraído com o telemóvel, nem se dava ao trabalho de responder aos mimos que lhe dirigia. Viu-se obrigado a abrir a porta, decidido a arrancar o gajo dali pra fora nem que fosse a pontapé: Eu já te F…o, Corno do Ca…lho! E foi aí que a coisa aconteceu…
Tenho para mim que nisto de desabafar, o melhor é ouvir calada. Depois de se aliviarem as mágoas, ficam os fígados desopilados, e quando os ares desanuviam, até se chega a dar umas boas gargalhadas. Não foi o caso. Depois da confissão o Marques ficou mais macambúzio, como quem está agoniado por ainda ter alguma coisa entalada na garganta. Há que dar tempo ao homem para se recompor, pensei eu, mas não tive que esperar muito. Pelos vistos, o defumador de carros, depois do estrago feito, meteu-se dentro da viatura e foi à sua vida sem deixar rasto. Como é evidente, desta vez o desfecho não ia dar direito a gargalhadas. Para lhe servir de consolo, abri uma exceção e contei-lhe a desgraceira por que passei quando me levaram o automóvel da frente da porta de casa. É duro, mas uma pessoa tem que se aguentar à bronca e andar para diante. Não resultou. O Marques continuou de rastos e nisto tinha-se acabado a hora do almoço.
Por efeito da proximidade do fim de semana ou graças ao tempero da Lurdinhas, as tardes de sexta feira costumam correr de feição e num instante está finda a jornada. À saída, o Marques desapareceu como um foguete. O resto do pessoal ficou na risota, comentando o caso do gajo que só depois de levar um murro na cara é que lembra que carros novos há muitos e que o dele estava estacionado dois lugares atrás!
Acreditem, enganos acontecem a muito boa gente…

 

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